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Repórter Fábio Almeida palestra para estudantes de Jornalismo do IPA Imprimir
Escrito por Gisele Gonçalves   
Sábado, 19 de Setembro de 2015 - 10:37

IMG 2609Foto de Letícia Carlan

O jornalista Fábio Almeida participou de um bate-papo com estudantes do curso de Jornalismo, na noite da última quinta-feira (17/9), no IPA. O repórter do núcleo de Jornalismo Investigativo da RBS TV compartilhou suas experiências profissionais com os alunos das disciplinas de Projeto Experimental IV – Telejornalismo, da professora Sandra Bittencourt e Jornalismo Especializado IV – Investigativo, da professora Letícia Carlan, autora do convite.

Há seis anos como repórter da RBS TV, com uma série de reportagens veiculadas nos telejornais locais e na Rede Globo, como Bom Dia Brasil, Fantástico e Jornal da Globo, o jovem jornalista investigativo destaca-se no meio por suas matérias de caráter denuncista. Produções que lhe renderam mais de 40 premiações, incluindo o Prêmio da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), além de distinções internacionais. Paciente e bem-humorado, ele respondeu a todos os questionamentos dos futuros colegas de profissão.

Trajetória e paixão pelo rádio

Os primeiros passos da promissora carreira iniciaram na adolescência, enquanto cursava o antigo segundo grau, atual ensino médio. Na TVE, fez seu primeiro estágio no Jornalismo, como produtor do extinto programa Hip Hop Sul. No rádio, sua paixão, passou pela Transamérica, de Novo Hamburgo, rádios Gaúcha e Farroupilha. Na sua segunda passagem pela rádio Gaúcha, em 2005, começou a produzir reportagens investigativas. Na primeira delas, Cidade Baixa: um território sem lei, ele e o parceiro de reportagem, o jornalista Cid Martins, passaram de denunciantes a vítimas da violência.

Fábio Almeida contou aos alunos que, durante a investigação sobre a criminalidade no bairro Cidade Baixa, ele e Cid Martins foram assaltados por um grupo de jovens, que consumia drogas nas mediações da Rua Lima e Silva. Com os gravadores ligados, os jornalistas, captaram toda a ação dos jovens. “A gente estava ali, entre o medo do assalto e o instinto jornalístico”. A tônica dessa conversa foi legitimada com o áudio reproduzindo o momento exato do assalto. O material foi utilizado na matéria. Nessa mesma produção, os repórteres revelaram o esquema envolvendo os chamados ‘garçons da droga’, que faziam a entrega dos entorpecentes nas mesas dos frequentadores de bares da região. “O cliente levantava o braço, escolhia entre a maconha, cocaína e o crack e o ‘garçom’ buscava a droga e fazia a entrega de skate”, detalhou.

Das produções dessa época, Fábio Almeida deu destaque para as reportagens: Organizações Nazistas no Brasil, Nazistas Sulinos e Violência Futebol Clube, que mostrou os bastidores das torcidas organizadas no Rio Grande do Sul.

A carreira na televisão

Depois da passagem intensa pela Gaúcha, em 2009, ingressou na RBS TV, através do Programa Caras Novas - porta de entrada para novos talentos. Considerado novato na TV, o jornalista não mediu esforços para conquistar o seu espaço. “No início, eu fiz de tudo, fui produtor, repórter da madrugada, repórter de passagem, entrei ao vivo, fiz boletim, antes de retornar às minhas origens no investigativo”. Para ele, a grande virtude do repórter é ser chato, ser cri-cri. Para os repórteres insatisfeitos com suas pautas, sugeriu ação. “Está achando ruim ter que cobrir buraco de rua, traz pautas novas”, ponderou. Apesar de, inicialmente, trabalhar na madrugada, o repórter vendia pautas diárias, denúncias. Naquela época, uma de suas atribuições era fazer a ronda, passava a madrugada ligando para delegacias, hospitais, órgãos de fiscalização do trânsito, em busca de uma pauta. “Foi assim que construí boa parte da minha rede de fontes. De tanto ligar fui ficando conhecido, até que chegou um ponto em que as pessoas me ligavam para me passar informações”, recordou. Essa postura pró-ativa e as relações que estabeleceu foram cruciais para o desenvolvimento do seu trabalho.

Repórter apaixonado pelo rádio, Fábio contou que precisou se adaptar às especificidades da televisão. Na TV, “tudo que a gente está falando, temos que mostrar”, destacou, exaltando a principal diferença entre uma mídia e outra.

O uso de microcâmeras, outra peculiaridade da TV, promoveu discussão. O tema abordado pelo jornalista polariza recorrentes debates e divide opiniões, inclusive no meio acadêmico. Para o repórter, o uso é legitimado quando o que está em jogo é o bem maior, princípio do Direito e, o interesse da comunidade. Entretanto, defendeu o uso ponderado. “Sou contrário à banalização da microcâmera. Ir ao mercado com câmera escondida para flagrar o preço do pão é banalizar uma ferramenta que não é símbolo do jornalismo investigativo, é uma ferramenta da comunicação”, concluiu.

O Jornalismo Investigativo

Ao longo da palestra, por mais de uma vez, Fábio Almeida repetiu a frase “nós revelamos o que as pessoas tentam esconder”. Mensagem que guarda a essência dessa área do Jornalismo, dedicada à investigação, à revelação de fatos, estrategicamente omitidos da grande massa.

Propondo a reflexão, a professora Sandra Bittencourt lançou o questionamento sobre a necessidade de o Jornalismo Investigativo ampliar a discussão de determinados temas como o aborto, sobre outra ótica, que não a policialesca. Completando a exposição, a professora Letícia, enfatizou que a discussão não se trata do papel do Jornalismo Investigativo, mas sim do dever enquanto jornalista. “A gente não deve, dependendo do tema, restringir somente a análise pelo ponto de vista investigativo e sim ampliar a discussão para outras esferas”. Nesse exemplo específico, justificou o repórter, “o fato é um crime – o aborto - e não uma pauta factual”. Por outro lado, concordou que o corre-corre nas redações e a falta de integração entre editorias e entre outros veículos de um mesmo grupo inviabiliza a expansão da pauta. Quanto à discussão sobre os limites para exibição de imagens que chocam pelo seu conteúdo, Fábio Almeida foi pontual. Para ele, a questão é subjetiva, pois depende do perfil do editor, responsável por definir a estrutura da reportagem.

Na disciplina de Jornalismo Investigativo, se discute a manutenção de reportagens dessa natureza, em virtude do tempo e recursos demandados para produção e em muitos casos a necessidade de deslocar profissionais. Uma fatia grande de veículos trabalha com matérias factuais caracterizadas por um discurso enxuto e disseminação instantânea. Lotado nesse terreno instável, o repórter disse não ter parado para pensar no futuro. Mas, reconheceu que em momentos de crise essas pautas (referindo-se às reportagens investigativas), somem das redações. De concreto, só a vontade do jornalista permanecer como repórter investigativo. 

Antes de encerrar a palestra, o repórter Fábio Almeida reproduziu a primeira reportagem de uma série sobre extração ilegal de areia no rio Jacuí. Eleita por ele como a mais importante da sua carreira, a reportagem, além de mostrar o flagrante inédito da ação de dragas retirando areia próximo às margens, serviu como base para a Operação Concutare da Polícia Federal. “Essa foi uma matéria que me marcou pela maneira de fazer, foi uma matéria extremamente pé no barro, de estar 4h da manhã na beira do rio, em um dia frio, dentro de um barquinho fingindo estar pescando. A matéria me marcou também pelo retorno que ela trouxe. Ela movimentou o Tribunal de Contas do Estado, auditou as licenças ambientais da FEPAM e, com isso, a Fundação mudou todo o sistema de regramento do Estado”, relatou. O tema se desdobrou em uma série de seis reportagens, virou case na Espanha e rendeu a equipe o prêmio Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Prêmio Embratel, Prêmio Ministério Público e o internacional Rei de Espanha.

 


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