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Mudanças climáticas Imprimir
Escrito por Lisete Ghiggi e Matheus Pannebecker. Fotos: Rafaela Haygertt   
Sexta, 09 de Abril de 2010 - 09:49

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Na manhã de quinta-feira, 8 de abril, na aula magna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e integrante do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), Carlos Nobre, revelou a sua preocupação com o aquecimento global, 

ao apontar as  causas, bem como os efeitos já percebidos nas mudanças climáticas planeta. No entanto, apesar das projeções pouco alvissareiras para o  planeta, o pesquisador mostrou-se otimista com a nova geração e desafiou os jovens a buscar um novo modelo de desenvolvimento.

Para o conferencista, a escolha do tema: 'Mudanças Climáticas Globais: por que devemos nos preocupar?' é um reflexo da preocupação acadêmica e da comunidade com a atual situação do planeta. "O aquecimento global é uma das maiores questões do século XXI e também é um assunto que não vai mais sair da agenda de discussões".

Alternando explicações teóricas com dados de pesquisas e observações próprias, Carlos Nobre dividiu a sua apresentação em cinco partes. Por aproximadamente uma hora, deu ênfase para as consequências do aquecimento global e apresentou projeções para o futuro. Para ele a preocupação não é apenas com a temperatura que está aumentando, mas também o gelo que está derretendo e, consequentemente, com o aumento do nível do mar.

Dados apresentados em sua aula mostram a velocidade dos acontecimentos que afetam o planeta. Segundo o palestrante, a cada hora, nove mil pessoas se somam à população mundial; 1500 hectares de florestas são derrubadas; 1,7 milhões de quilogramas de nitrogênio reativo são lançados nas florestas, campos agrícolas e águas, e neste mesmo tempo, extinguem-se três espécies de seres vivos. Tais dados justificam a sua preocupação e da comunidade científica que caminha "pisando num acelerador em direção ao abismo". Tal aceleração também se refere à velocidade com que aumentam as emissões dos gases de efeito estufa (GEEs): gás carbônico (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O) juntamente como os vapores de água.

Usando gráficos, o pesquisador também chamou atenção para o aumento simultâneo da emissão de gás carbônico e da temperatura. Segundo ele, o aumento de 0,2ºC por década parece insignificante, mas não é. Projeções mostram que o aumento da temperatura global nos próximos 100 anos pode chegar a 5ºC (em relação a 1990), dependendo do cenário da emissão de gases. Mas, o "pé no acelerador' fará com que a temperatura prevista para os próximos mil anos seja a mesma em apenas 200 anos.

De acordo com Nobre, o aquecimento global é responsável por variações meteorológicas extremas como enchentes, secas, frio e calor, e citou como exemplo a tragédia do Rio de Janeiro, que recebeu o maior volume de água destes últimos 40 anos. Entre as consequências do aquecimento global nos biomas do Brasil, o conferencista citou a savanização da Amazônia e a aridificação do Nordeste. "Podemos e estamos reduzindo o desmatamento, mas não o aquecimento global", afirmou.

Ao tratar dos riscos sistêmicos que afetam o planeta Terra, o pesquisador afirmou que "estão à beira a irreversibilidade", e apontou entre eles, a extinção de espécies, desaparecimento das geleiras do Ártico, degelo na Groelândia e a acidificação dos oceanos, um fator que compromete a biodiversidade.

Para Carlos Nobre, estamos assistindo uma inércia física e institucional. A inércia física decorre do fato de que o CO2 na atmosfera leva de 100 a 1000 anos para ser retirado de forma natural. O mesmo ocorre com os oceanos que demoram até 30 anos para adaptar sua temperatura superficial e até 600 anos para suas águas mais profundas. Quanto à inércia constitucional, explica, deve-se ao fato de os problemas ambientais ficarem nas mãos de quem toma as decisões políticas. Segundo o pesquisador, há também dimensões éticas nas mudanças climáticas globais, e aponta o fato de que os países que mais sofrem as conseqüências do aquecimento global são os que menos poluíram.

Como prever o futuro? Para o pesquisador é difícil. E não é diferente nas ciências climáticas. "Pode-se projetar envelopes de probabilidade, mas não conseguimos dizer o que vai acontecer. O sistema terrestre é complexo e repleto de variáveis".

Outro aspecto importante ressaltado pelo conferencista trata da intervenção humana na mudança do clima de uma cidade. E aponta como exemplo São Paulo, onde, muitos fatores, como a impermeabilização do solo com a cobertura asfáltica, contribuem para que hoje se contabilize o dobro dos desastres provocados por chuvas em relação a anos anteriores. Nobre também destaca que as mudanças climáticas terão reflexos na produção agrícola e "a agricultura do futuro será diferente do presente". E exemplifica: em 50 anos, o Rio Grande do Sul será um produtor de café e Santa Catarina, em 30 anos, abandonará o cultivo da maçã para a banana.

O pesquisador se mostrou entusiasmado com os rumos brasileiros em relação às medidas para conter o aquecimento global, e afirmou que o Brasil assumiu o 'protagonismo", ao anunciar na COP15 as medidas para conter o aquecimento global. Com a decisão apresentada pelo presidente Lula, na COP15, está o compromisso de reduzir emissões de gases entre 36% e 39% até 2020. A posição do Brasil, afirma, Nobre, mudou radicalmente a sua imagem. Atualmente "o nosso país possui metas mais ambiciosas que a dos EUA e também é o líder no assunto entre os países em desenvolvimento".

Para o integrante do IPPC, é preciso usar as potencialidades e criar um modelo de industrialização a partir das riquezas de forma sustentável, além de usar a tecnologia e a ciência para inventar o futuro. E o desafio, segundo ele, é "inventar um paradigma de desenvolvimento baseado em conhecimento, reconhecendo que o uso racional dos recursos naturais renováveis e da biodiversidade podem ser uma grande alavanca para o desenvolvimento". Ao reconhecer que a sua geração e os que lideram o mundo estão falhando, apelou para que os jovens se libertem do modelo em que estamos vivendo e "tragam mais esperança para o planeta".

Depois de manter atento o público que lotou o Auditório da Reitoria, não foi difícil obter uma opinião do evento, como a do estudante de Estatística, Acauã Brondani. Para ele o conferencista foi certeiro em suas explicações: "Na aula não só conseguiu dialogar com o público de forma clara, como também teve a mesma dose alarmante sobre o assunto do filme produzido por Al Gore, Uma Verdade Inconveniente".

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