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Capa Memória Geral Uma rua e duas histórias tristes
Uma rua e duas histórias tristes Imprimir
Escrito por Ramisés Falconi   
Quinta, 05 de Agosto de 2010 - 10:52

violencia-ramisesQuarenta passos separam o final da vida de Alex Sandro Israel da Silva e Maico Komparin, no local onde eles foram executados a tiros no Município de Esteio. Um período de três anos distancia um pouco mais a morte dos dois jovens entre 20 e 28 anos. Afora a distância e o tempo, tudo aproxima a história de vida dos dois, acomoda estampidos e os corpos sob o meio fio, na rotina da rua Vereador Ernesto Menezes.

O crime mais recente na história da rua do bairro Vila Olímpica, em Esteio, foi o de Maico Komparim. Executado à queima-roupa por um motoqueiro não identificado, levou cinco tiros pouco antes do horário do almoço, no dia 22 de fevereiro. A filha de uma dona-de-casa que varria a calçada no momento dos disparos, a professora Márcia Silva, relata o pânico instaurado: “A mãe varria a calçada quando o cara passou por trás dela e, de repente, chegou um outro a pé atirando. Ela correu para a grade, mas por causa do nervosismo, não conseguia abrir o portão”. Segundo informações dos moradores, depois de efetuar os disparos, o homem que estava todo de preto, correu para a moto que estava estacionada mais adiante.

Os estampidos foram ouvidos pela Brigada Militar que fazia o boletim de ocorrência da companheira de Maico, na rua São Francisco. Com passagem na polícia por furto, ameaça, estelionato, porte ilegal de arma, tráfico e homicídio, ele foi orientado pelos policiais militares a se afastar do local. O deslocamento dele não se estendeu por mais do que três quadras, quando foi alvejado, caindo no meio fio. Conforme informações da sua companheira, que chegou junto com os policiais ao local empurrando um carrinho com um dos filhos do casal, ele já estava “prometido”.

Já, a morte de Alex Sandro teve tons mais dramáticos. Chamado à frente de sua casa por um amigo, na rua São Francisco, o adolescente correu pelo bairro tentando escapar de seus executores. Eles o perseguiram por três quadras e efetuaram quatro disparos. Desde aquele dia o barulho de motocicleta e o som de tiros passaram a ser sinônimo de execução. Com três perfurações no corpo, o jovem entrou na rua Ernesto Menezes e gritou da grade de uma residência pedindo ajuda. Quando o dono da casa abriu a janela o corpo já estava caído na rua.

A história já faz parte da memória coletiva da rua, principalmente a dramaticidade das pessoas ao saírem em socorro da vítima, que tinha parentes quatro casas adiante. Moradores prestaram os primeiros-socorros ao rapaz que convulsionava no meio-fio. Eles tentaram ressuscitá-lo e aguardaram a ambulância que chegaria uma hora após ser chamada. Moradores, que não querem se identificar, disseram que, ao informarem a Brigada Militar, ouviram do atendente: “um a menos na rua”. Alex tinha uma ficha extensa marcada por roubos e havia cumprido pena na FASE.

Duas mortes

 Dos dois assassinatos, o que ficou gravado na memória dos moradores foi o momento em que a mãe de Alex, a cozinheira I.O.P ao chegar perto do corpo do jovem disse: “Eu falei pra ti sair dessa meu filho”, relembra Eva Maria, moradora que presenciou o choque que as duas mortes ocasionaram nos moradores.

Passados três anos, a frase proferida por I.O.P. e ouvida pelos vizinhos da rua Ernesto Menezes, parece ter usado todo o seu fôlego e até transtornado os sentidos. Os procedimentos domésticos são todos automáticos. Ela levanta às 7 horas e vai para o trabalho em um restaurante no centro da cidade. O ônibus percorre ruas, trilhadas pelo filho durante a fuga. Na rotina puxada do trabalho, apenas alguns poucos momentos ficam excluídos das lembranças mais doloridas. O serviço é

concluído e I.O.P. retorna ao lar pelo caminho que o filho, ainda pequeno, fazia para escola. “As pessoas do trabalho sempre me perguntam como eu ainda estou viva”, conta a mãe. A voz sai-lhe pela boca depois de um esforço incomum do pulmão.

Destino cruel

 Na sequência, com a ajuda de uma das filhas, a mãe de Alex risca no ar uma linha de tempo com eventos que aterrorizam qualquer família: “primeiro a nossa casa pegou fogo, antes de nos mudarmos para cá; depois o meu marido foi assassinado pelo sócio, numa manhã de Sexta-feira Santa, enquanto preparávamos o almoço, quando Alex tinha entre 2 e 3 anos. E anos mais tarde morre o meu caçula”.

Foi com a morte do marido que a mãe precisou sair para trabalhar fora de casa a fim de suprir as necessidades da família. “No começo, as crianças ficavam com uma prima minha, depois não deu mais e aí elas passaram a ficar sozinhas”, relata. Entre os 13 e 14 anos, o jovem acabou se envolvendo em delitos como furtos e roubos, o que lhe custou alguns anos na Febem. Depois de sua saída, chegou a retomar os estudos. Trabalhou no setor de carga e descarga de uma grande empresa de Esteio e depois numa oficina mecânica. O retorno à contravenção aconteceu ao encontrar os antigos parceiros que, ao contrário dele, tinham escapado de cumprir pena. O consumo de maconha, posteriormente do crack e o tráfico dessas drogas era a nova categoria de crime em que ele se enquadrava. “Eu percebi que tinha perdido o controle quando ele estava com 18 e 19 anos. Ele dizia que se governava e não aceitava os meus conselhos, apenas os dos amigos”, relembra I.O.P.

“Olha, ele não vai poder voltar ao trabalho porque ele morreu”. O tom enfático de G.R.S, irmã de Alex, esclarecia ao dono da oficina mecânica que ele não poderia mais voltar ao trabalho. Mas, “Eles ligaram três vezes depois que o meu irmão morreu porque gostavam muito do trabalho dele e pareciam não acreditar que ele havia morrido”.

 

Oportunidades para reverter a criminalidade

violencia2-ramisesOferecer oportunidade de emprego é uma forma de reduzir o ingresso de jovens na criminalidade, segundo o prefeito de Esteio, Gilmar Rinaldi, já acostumado a ouvir relatos de  mães que perderam seus filhos por envolvimento no tráfico e no consumo de drogas.

“Precisamos oferecer oportunidades para que eles tenham escolha”, articula o prefeito, que em 2009 viu o seu município contabilizar 18 dos 1.607 homicídios registrados no Estado.Morador da cidade há 35 anos, Rinaldi passou parte de sua infância e adolescência no Parque Santo Ignácio, bairro vizinho à Vila Olímpica.Segundo ele, hoje o município tem um percentual de jovens entre 15 e 29 anos com envolvimento em drogas incluindo o álcool, e por conseqüência, com o crime. “É na juventude que a gente define o que quer cursar, o que a gente quer ser”, lembra Gilmar, que na adolescência integrou o grupo de jovens da paróquia do seu bairro e também o Grêmio Estudantil da Escola Estadual Loureiro da Silva. 

Como reverter o quadro?

A prefeitura de Esteio já implementou programas como o Pró-Jovem, Cidadão Consciente, Projeto Esporte e Lazer nas Cidades, Programa Integrado de Inclusão Social e o Mais Educação, com cerca de duas mil crianças beneficiadas no turno inverso das escolas. Ao todo são mais de 3.700 vagas para a qualificação e acolhimento a crianças em situação de vulnerabilidade social.

 

violencia3-ramisesO crack é um agravante

Recente levantamento da Secretaria Estadual de Segurança Pública revela o avanço do tráfico no Estado. Até 2 de maio deste ano, 2.232 ocorrências de tráfico de entorpecentes foram registradas no RS, o que corresponde a terça parte das registradas em 2009, com 6.144 e quase a metade dos registros de 2008, com 4.625. Em Esteio, o número desse tipo de ocorrências é pequeno, apenas quatro. Por outro lado, outros indicadores do tráfico estão presentes, como o número de assassinatos que chegaram a 10 somente neste período, contra 18 em todo o ano passado.

Para o delegado de Polícia Civil de Esteio Leonel Baldasso, “o agravante do tráfico, que não é um problema de agora, é o crack, altamente destrutivo para as famílias”. Para o combate a disseminação do tráfico, revela Baldasso, a investigação trabalha com o mapeamento dos pontos de venda para que possa ser feita a desarticulação integral das quadrilhas. “Fazemos o trabalho em cima de todos os tipos de drogas, mas o crack sempre desponta em nossas operações”, ressalta.

“Ele é uma droga que a pessoa sempre necessita mais e mais e vai acabar incorrendo em algum delito para manter o vício”. E os números comprovam as conclusões de Baldasso. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública, as contravenções como furto e roubo somam um total de 946 ocorrências mais de um terço do total de 2009.

 

violencia4-ramisesTristes coincidências

Nas somas estatísticas não entraram os números percebidos pelos moradores da rua Vereador Ernesto Menezes. Foram quarenta passos contados e traçados pelas manchas do sangue de Alex da Silva até o corpo de Maico Komparim. A proximidade no fim da vida dos dois jovens também se refletiu em vida, como conta a irmã de Alex: “Eles jogavam bola juntos, a mãe do Maico morava um pouco aqui pra cima da nossa casa, ele chegou a ir conosco para a praia em uma oportunidade”.

 


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