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Capa Memória Literário Um conto de Natal urbano
Um conto de Natal urbano Imprimir
Escrito por Luís Bustamante   
Segunda, 17 de Dezembro de 2007 - 16:16

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Bem que o motorista do ônibus pressentiu que seriam assaltados tão logo chegassem ao ponto mais alto do morro. Afinal, era só ele a tripulação (havia deixado o cobrador paradas antes), estava com a féria do dia para entregar na garagem, restavam ainda uns oito passageiros, incluindo os dois carinhas vestindo jaquetas e toucas, e era noite de Natal.

Não que ele, o motorista, fosse dado a premonições, tivesse algum trauma ou até mesmo preconceito contra dois sujeitos vestidos daquela forma. O fato é que fazia uma temperatura morna, quase quente, um tanto inadequada para alguém vestir jaqueta e touca. Além do que, os dois se comportavam de maneira suspeita, causando apreensão aos passageiros. E tinha a experiência de muitos Natais do motorista: enquanto uns festejam, outros sofrem e tantos outros se recolhem e vão dormir cedo, não faltam aqueles que deixam despertar as suas más-índoles e saem pelas ruas praticando malvadezas, entre as quais, assaltos - por sinal, esses últimos sob o argumento de que também são vítimas de injustiças sociais.

Faltavam poucos minutos para a meia-noite e não muitos metros para o pico do morro. Nenhum passageiro desceria ali, mas os dois sujeitos levantaram, puxaram as toucas sobre os olhos e enfiaram as mãos sob as jaquetas. O motorista acompanhando pelo espelho. Alguns passageiros já antevendo o desfecho, se preparando, pois, visivelmente nervosos como estavam os caras suspeitos, até uma tragédia podia se dar ali. Na rua, alguns fogos começando a espoucar, o ônibus se aproximando daquele ponto mais alto, os passageiros tensos, o motorista buscando calma, os dois sujeitos cada vez mais enfiados em suas jaquetas e touca, só que agora com o brilho opaco dos revólveres. Na parada, à frente, em menino estende o braço. Um dos caras enjaquetados grita, ordena que o motorista não pare. Este acelera, mas o ônibus parece não aumentar a velocidade. O outro sujeito também grita. O motorista aperta o pedal, tenta acelerar; o ônibus, ao contrário, começa a parar. Os dois caras gritam ao mesmo tempo, apontado as armas para o motorista. Os passageiros calados, porém temerosos. O ônibus pára, exatamente na parada onde está o menino. Os caras armados ainda gritam para que o motorista não abra a porta. Mas não tem jeito, a porta se abre como por encanto. E o menino entra.

Descalço, maltrapilho, manchas de sujeira nos braços e faces, deveria ter não mais que seis anos de idade. Trazia nas mãos uma caixa de balas de goma. Fez-se um longo silêncio. Todos, até os dois com as armas nas mãos, olhavam atônitos para a pequena figura. O menino apenas deu um sorriso inocente, distraído, pegou um pacotinho de balas e alcançou para o motorista, depois para um passageiro, para outro e assim por diante, inclusive para os dois sujeitos com as toucas, que aceitaram demonstrando perplexidade. O menino, em sua maneira infantil de falar, avisando que não estava vendendo as balas, que era um presente do papai do céu. Um clima de encantamento tomou conta das pessoas. Os dois caras armados ficaram confusos, proferiram alguns palavrões e, quase tropeçando no menino, apressaram-se em descer do ônibus, ganharam a rua e sumiram na escuridão. O menino ainda brincou com uma moça de jaleco branco. Correu para a porta, ajeitando a caixa de balas de goma, acenou para o motorista, desceu e saiu saltitante pela calcada esburacada.

O turbilhão de fogos de artifício anunciava meia-noite. Os passageiros ainda perplexos com os acontecimentos. O motorista, com a voz embargada conseguiu desejar um Feliz Natal a todos e arrancou o ônibus, que, lentamente, iniciou a descida do morro e embrenhou-se na noite iluminada pelos fogos multicoloridos. Ao olhar pelo retrovisor externo, divisou, como se fosse no alto do morro, um cometa riscando o céu.

 


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