banner multi
Capa Memória Literário O homem dos guarda-chuvas
O homem dos guarda-chuvas Imprimir
Escrito por Luís Bustamante   
Segunda, 30 de Julho de 2007 - 17:07

20070730_ohomemdos

Chamava-se João Têilor. Era assim mesmo o seu nome, abrasileirado, e jamais alguém soubera a razão disso, embora fosse pessoa notável na cidade.

João Têilor morava numa casinha de duas peças onde havia, frente, uma pequena oficina em que ele passava a maior parte do tempo. Na placa, ao lado da porta, estava escrito, em letras caprichadas e sem erros: "consertos, compra e venda de guarda-chuvas".

Consertos de guarda-chuvas. Ninguém ali tinha tanta habilidade quanto ele para fazer isso, o que o tornava único no negócio. João Têilor não tinha concorrentes.

Mas o que o notabilizou foi, na verdade, o trabalho de vendas, por um motivo que também nunca ninguém entendera: toda vez que João Têilor saía para vender guarda-chuvas podia-se estar certo de que dali a pouco começaria a chover. Mesmo fora da época das chuvas. No verão, por exemplo, o sol rachando o chão, secando as cacimbas e a vontade das pessoas, João Têilor enchia um enorme cabide com guarda-chuvas e saía pelas ruas. Não demorava e lá vinham grossos pingos, depois se transformando num aguaceiro de quebrar telhas, e amainando em pouco mais de meia hora. Aí ficava uma chuvinha indolente que durava mais dois ou três dias.

Não há quem lembre quando isso começou a acontecer. O fato é que João Têilor e os seus guarda-chuvas tornaram-se vitais para o lugar. Tudo passou a girar em torno deles. Não se fazia uma horta sem antes saber dele quando sairia para vender os seus guarda-chuvas. E, quando a seca começava a se prolongar, as pessoas aguardavam ansiosas a passagem de João Têilor, que era tão certa quanto o dia seguinte.

Uma vez faltaram guarda-chuvas na cidade. A seca ia já para mais de seis meses. Todas as pessoas, então, correram às cidades vizinhas, compraram quantos guarda-chuvas pudessem e os levaram para João Têilor. Foi ele sair e vender e veio a chuva. Foram duas semanas de chuva.

João Têilor pouco falava e, por isso, pouco se sabia dele. De onde teria vindo, teria ou não parentes, o sobrenome, tudo era incógnito. Nem os seus hábitos, nem o que comia, nem o que fazia à noite, nada disso era revelado a quem quer que fosse. E todas essas coisas, com o tempo, foram perdendo a importância. João Têilor era assim, e isso não incomodava ninguém.

Foi numa quarta-feira de manhã. O sol já ia alto e a oficina de João Têilor permanecia fechada. As pessoas estranharam. Tiveram pressentimentos. Passaram o resto do dia andando de um lado para outro, inquietas. Ninguém queria bater na porta, nem chamá-lo. Isso nunca havia acontecido e as pessoas não sabiam qual seria a reação de João Têilor. Temiam incomodá-lo. Tampouco dirigiam olhares diretos para a oficina. Para disfarçar, simulavam encontros casuais bem em frente à casa. E a oficina continuou fechada e foi assim no dia seguinte, na semana e por todo o mês.

Sol intenso. As águas sumindo em vapores rápidos. Tinha que chover. E a oficina fechada e nenhuma notícia de João Têilor.

Até que alguém tomou a iniciativa. A casa foi arrombada e invadida. João estava lá dentro. Foi encontrado quieto, numa cadeira de balanço, num canto da oficina. Estava com uma aparência horrível e evitava olhar as pessoas.

Só então souberam que ele tivera um olho vazado por uma vareta de guarda-chuva, num momento de descuido. Quando aconteceu, João Têilor não quis procurar ajuda e tentou curar-se sozinho.

Todas as pessoas ficaram penalizadas. Tentaram tirá-lo dali. Buscaram um médico. O olho vazado saltava para fora.

O médico disse que João Têilor deveria ser levado imediatamente a um hospital, no que todos trataram de agir. Mas foi só o esforço. João Têilor fechou o olho são e parou de respirar. As pessoas choraram.

João Têilor foi sepultado no dia seguinte. Durante o cortejo, que atravessou a cidade, foram abertos todos os guarda-chuvas que puderam encontrar por ali. Foi bonito e abençoado, porque até choveu por alguns minutos.

Mas depois disso, depois que João Têilor deixou de existir, nunca mais caiu um pinguinho de chuva. Nunca mais.

 


Notícias relacionadas


Expediente

Mapa do Site :: Portal Universo IPA - 1º lugar na Intercom Nacional de 2008 :: Expediente
Creative Commons © 2005-2013 :: AJor - Agência Experimental de Jornalismo IPA