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Capa Memória Literário O Jesus segundo o Cristo
O Jesus segundo o Cristo Imprimir
Escrito por Carlos Tiburski   
Quinta, 19 de Abril de 2007 - 17:47

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Sonolento que andava, Geniraldo fez da cama o caminho mais seguro para o descanso das estripulias da noite passada. É que homem fica bobo, assim com um rabo de saia, que de repente perde o senso da razão. E, na ânsia de abraçar o mundo a um só momento, de uma só vez, comete loucuras como se enfeitiçado estivesse. Amor de rabo rodopia que nem candombe em terreira de Umbanda e só acaba com o esgotamento físico. Gota a gota, se esvai, se dilui, se adormece como um bicho feroz de tanto uivar para as estrelas. Dorme esbaforido. Assim que, de quando em quando, o corpo estremece sozinho. Reflexo de uma memória que se impregna na carne após longas noites de tanto querer. Dorme. E, aos primeiros bordejos de sono, ouve ao longe:

- Adeus povo, adeus árvores, adeus campos. Aceita a minha despedida. Fico governando estas zonas de cá por inteiro, até a zona dos trilhos. E o senhor, por sua vez, governa até a pancada do mar. Espinhos soltos no chão, mistérios presos no ar. Não deseje carregar esse cajado infinito.

Um coro estremecido de vozes masculinas retumba no ambiente.

- Anuncio a tua vinda no silêncio da noite.

Para continuar incompreensível o palavreado insano.

- Já vou. Longe da terra primeira a nitidez se acentua, o nevoeiro se engole. Minhas raízes caminham. Herdeiros do fim do mundo, queimem a vossa história tão mal contada.

Tambores estremecem ensurdecedores. O batuque chega da dobra do mundo, de quando ainda navio algum pudesse cruzar os desconhecidos mares da imensidão do além nada. Anunciados numa ladainha tamanha, igual a cachorros ladrando no sírio da noite e que se confunde com choro de criança recém nascida. A voz continuava perturbadora.

- No mais profundo riacho seco, na mais alta casa do mundo. Na vastidão do teu olho, na pancada do segundo. Suor de santa, vela acessa, na língua onde são consagrados o sangue e o vinho. Sou a ginga da Terra em fazer voltas e colocar tudo no seu devido lugar. Terra que traz a poeira e a fé em Deus. Vem poeira, vem poeira. Fogo da dança da saia que rasga a copa do mundo. Bafo quente do estremecimento da fumaça e sequidão entre a terra e o mar: salve São Francisco!

Nesse instante, uma pedra miúda, tão muda no seu rolar, se assenta no fundo do riacho vazio. No meio das macegas, no rastro verde esmaecido do sol incansável, estava sentado em uma saliência, um homem. Tão logo, Geniraldo se deu conta da presença silenciosa, o homem desatou a falar:

- Emanuel, Eu Sou... e venho pedir a permissão para me tornar o mensageiro da força do trovão. Eu venho de longe, de onde a cascavel é traiçoeira e se esconde no meio do cascalho vermelho. Venho com a chuva maneira, aguando a terra quente. Erguendo um véu de poeira, deixando a tarde cheirosa. Sou planta que cobre o chão. Na primeira trovoada, sou a noite que desce fria depois da tarde molhada. Sou a seca desesperada, rasgando o bucho do chão. O inverno e o verão. Sou a luz do vaga-lume, vagando no lume da criação. A cuia do velho cego, o ramo da rezadeira. Vocês, que estão no palácio, venham ouvir o meu pobre pio.

Geniraldo, num tremor sem explicação, se deu conta da danação em que se encontrava. Mesmo em sonho, compreendeu com quem falava. Era Ele, o cordeiro, o Cristo, o crucificado. Ai, desgraça! Devo ter morrido - pensa Geniraldo. Para me encontrar com Ele, só pode ser mesmo é morte. Mais por nervosismo do que por medo da vida torta que levava, Geniraldo se põem copiosamente a chorar ajoelhado sobre o leito ressequido do riacho.

- Valei-me meu Jesus! O que fazer de um vagabundo como eu? De certo que a indignação foi tanta lá pelas bandas de cima, que vieste pessoalmente recolher essa rebeldia entranhada nas minhas tripas. Eu que tratei a vida na base da faca e do trago, no afago esparso da promessa de um amor que não se cumpria em mulher alguma. De tanto procurar, me perdi em tantos cheiros femininos que me esqueci do amor sincero. Fiquei assim, tão abestado e enlouquecido que só mesmo o Cristo para me tirar dessa perdição medonha.

Não percebendo que o seu choro de autocomiseração só causava risos no Cristo. Geniraldo continuou debulhando o seu terço de pecados intermináveis. Da sua boca vertia em profusão, malgrados de uma vida que se não era correta, só podia ser errada. Ao mesmo tempo em que se entorpecia ao se confessar, Geniraldo amaldiçoava silenciosamente o Vigário Ambrósio: e não é que não adiantou aquela montoeira de Pais-Nosso, Aves-Maria. Bando de vigaristas esses padres! Eles inventam o pecado e nos mandam rezar milhões de terço para nada. Geniraldo continuou tão absorto e compenetrado em suas lástimas que até mesmo a fome veio pedir esmola. O Cristo, que não é bobo nem nada, percebendo que Geniraldo poderia se perder indefinidamente no lodaçal da culpa, falou enfaticamente:

- Acorda, levanta, resolve. Dos confins do infinito, das veredas estreitas do universo, vejo as cinzas do tempo, o renascimento e as danças do fogo. Da purificação vai nascer um outro homem.

Como que por encanto, Geniraldo se dá conta da inutilidade da lamúria. Tocado pela profunda mensagem do Cristo, recolhe de uma memória ancestral, do núcleo de suas células, como uma força sísmica do centro do seu ser, fôlego para balbuciar apenas. Pois, tanto que perdeu tempo se embriagando nos saraus de Nhá Bandina, velha matrona das casas terracota da Ladeira do Beija-flor, um bairro mais abaixo e destinado ao encontro dos amores furtivos. Que se perdeu em lembranças fugidias como as sombras da noite...

Nhá Bandina ou La Negra, como era chamada pelos comensais da luxúria, era habilidosa em enredar os amantes do acaso em suas cantigas de mameluca. Quase sem querer, foi construindo a sua volta verdadeiro bordel. Houve um tempo em que se reuniam em baixo de suas asas, mais de 20 das mais formosas meninas dispostas a se entregarem de todas as formas por apenas um pedaço de pão carunchado ou de um queijo mofado. Por um desses acasos da vida, veio parar no seio daquela família, o velho João. Chegou com pouco mais que uns pêlos na cara e livros de todas as medidas. Apesar da juventude, carregava na face o tom grave de um destino fatal. Vinha fugido das insanidades da família consangüínea que tanto o atormentava. Fugia das lembranças e das surras enlouquecidas do terçado levado à carne de soslaio, num pranchaço que talhava as costas e onde mais acertasse, aquele facão doido macerando o lombo com uma fúria desmedida. Estou em fuga neste mundo, em fuga de um destino irreparável escavado nos meus genes - dizia o velho João - e continuarei fugindo por muitas outras vidas até que essa tragédia se perca no esquecimento, até que a morte esqueça o meu nome.

Assim como chegou, o velho João também partiu, mas não sem antes alfabetizar as meninas. À noite, uma a uma, leu, folheou e releu com zelo e dedicação as formosuras de Nhá Bandina. Navegando em desejos irascíveis, chorava louco de amor até o amanhecer. De tardinha, pouco antes do sol amainar, sentavam todas em volta da figueira e no barro vermelho do chão ou na tábua improvisada com carvão da noite passada, traçava símbolos e a sua pronúncia correta. Com o tempo, pode até ler os livros de todas as medidas para o fascínio das formosuras de Nhá Bandina. Com espanto, ouviam histórias quiméricas escritas por um grego cego, um tal de Homero. Sem muita dificuldade, descobriram que o mesmo velho cego estava em outras histórias repletas de espelhos, tigres e bibliotecas seráficas. Ele gastou os olhos lendo todos os livros do mundo - diziam sem sombra de dúvida sobre o grego cego que por agora se chamava Jorge Luís Borges. Não se sabe se o velho João partiu por ter completado o seu tempo naquele lugar fora do tempo ou se empurrado por uma lembrança, por um destino que não permitia que suas raízes crescessem em terra alguma. Partiu assim como veio, na calada da noite. Partiu e nunca mais se ouviu falar dele. Apenas Nhá Bandina, que desde menina era acostumada a conversar com o vento, de vez em quando ouvia na ventania o destino do velho João. De barba e cabelo tão brancos quanto o sal, parece que hoje encontrou pelas bandas do Capingüí, em uma cabana na beira do rio, refúgio para uma solidão que o carcomia desde o seu nascimento. Em outra conversa com o vento, Nhá Bandina veio a saber que quanto mais o tempo passava, mais rejuvenescia o velho João que, de agora em diante e até o fim dos tempos, não se poderia nunca mais chamá-lo de o velho João, mas de João, o novo. Mais adiante ainda, em um vento de corisco, Nhá Bandina teve a confirmação daquele estranho processo alquímico. João, o novo, aprendera a navegar e passava horas a fio apenas pescando traíras, carpas e bicudos pelo simples prazer de devolvê-los novamente ao rio. Todos os tesouros foram desterrados, o meu trabalho agora é enterrá-los novamente para que as gerações futuras tenham o que procurar - profetizava João, o novo. Certa feita, em uma brisa rasteira, o vento revelou à Nhá Bandina que João, o novo, havia descoberto como estancar a morte. Neste processo sereno de fazer e desfazer, descobriu uma paz interior que o rejuvenescia a cada dia. Como se o relógio andasse de trás para diante.

Todo esse tropel descontrolado de lembranças passava pela cabeça de Geniraldo, ao mesmo tempo em que ia repetindo para si as palavras do Cristo. Falava baixinho como se a invocação fosse um fio condutor que o tirasse desse labirinto de recordações. Aos poucos e no esforço teimoso da repetição, como um mantra, berra em libertação ao cabresto enfadonho de uma vida consagrada à lascívia e a ociosidade.

- Tenho medo... Tenho medo, mas estou aqui. Estou aqui Mãe, aqui meu Pai.

- Eis que venho no vento. Eu trago as boas novas para os novos tempos. Fala o Cristo de braços abertos em gesto de pai acolhedor ao filho arrependido.

- Ouça-me com atenção Geniraldo. Eu também vaguei por incontáveis mundos que hoje não são mais do que poeira cósmica. Como um vaga mundo, também vivi as paixões: fui homem, tive filhos e família. Cruzei o charco das misérias humanas e, em infindáveis vezes, girei na roda da vida. Dos ciclos naturais da evolução, compreendi que a busca pela minha salvação estava na rendição, na devoção ao trabalho dedicado ao próximo. Abdiquei de reinos para viver entre a gente sofrida e carente por uma palavra de carinho e conforto apenas. Assim que, quanto mais cuidava das feridas dos outros, mais se fortalecia em meu coração o desejo de progresso interior. A caminhada é eterna, enquanto o tempo se digne a existir. Nunca é tarde para começar. E mesmo que não se aprenda muito, mas que se aprenda sempre um bocadinho. Na medida e no peso certo de cada um.
Geniraldo, eu venho apenas para te lembrar da tua memória divina. Levanta homem de Deus... Vamos caminhar que as gentes ansiam pelas boas novas: não há mais salvadores. Agora, cada um é o seu próprio Cristo! Cada um deve se despregar da cruz e fazer por onde.

Confuso e trôpego, Geniraldo se põem em marcha pelo leito do riacho. Com uma confiança crescente, ele traça uma reta até onde a vista alcança e mais ao longe, por caminhos que a imaginação ditar. Dizem que este caso aconteceu em Riacho Doce. Se é verdade? Não sei. Só sei que foi assim que me contaram.

 


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