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Capa Memória Literário Natal urbano - III
Natal urbano - III Imprimir
Escrito por Luiz Bustamante   
Quarta, 23 de Dezembro de 2009 - 11:01

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Faltando poucas horas para a ceia, todo mundo já meio alegre com os aperitivos que circulavam à farta, alguém lembrou o chavão de um antigo comercial da televisão.

– E aí, vai ter peru ou não vai ter peru?

Seria apenas uma das tantas frases feitas que congestionavam o ambiente não fosse a reação espantada de Conceição, levando as mãos à cabeça.

– Meu pai, o peru!

Foi como se houvesse um congelamento de cena, imobilizando e emudecendo os convivas por eternas partículas de segundos até que alguém conseguisse esboçar uma quebra no encanto.

– Que que tem o peru, Ceiça? Queimou?
– Ai, meu santinho! – lamuriava-se a cozinheira, as mãos ainda grudadas na cabeça.

Alguém ainda argumentou que não deveria ser o peru queimando no forno, afinal, aquele cheirinho tão característico vindo da cozinha... mas não, o que tinha mesmo no forno eram as coxinhas da asa que a Ceiça punha a assar pra servir como tira gosto. Então, o que a apavorava assim, parecendo ter o mundo caído por cima?

– Esqueci de pegar o bicho ali no súper!

Quase um novo congelamento de cena – como que alguém esquece do peru de Natal? Por onde anda a cabeça de quem subestima um dos mais tradicionais pratos natalinos? Sorte que a turma reagiu de imediato, pois logo alguém se dispõe a buscar a encomenda, aproveitando pra pegar mais umas latinhas, pra não faltar mais tarde, essas coisas de festa, sabe como é. Nem pensar: àquelas horas estaria tudo fechado, ainda mais o súper do bairro, fecha cedo, e outra opção só bem longe dali. E mesmo que se chegasse a tempo, impossível preparar e assar até a hora da ceia, que já se fazia notar com a preparação da mesa ao som de Jingle Bell, Happy Christmas, rock, pagode, salsas e outros ritmos como que misturados numa coqueteleira.

– Ora, que importância tem um peru... Natal é Natal de qualquer jeito, com ou sem peru – arriscou alguém.
– Não é não! – esbravejou Conceição, que de festas tradicionais entendia como ninguém; ainda mais Natal, tem que ter bastante comida, já que o nascimento do Menino Jesus foi tão pobrezinho, mesmo com o ouro, a mirra e o incenso levado pelos reis magos e ainda com doze dias de atraso, vê se pode?
– Não é não! – ordenou Conceição, listando os elementos essenciais da ceia de Natal: presépio, guirlandas, toalha com estampas natalinas, peru assado, arroz com passas, nozes, castanhas, panetone, presentes, o tio Nico vestido de Papai-Noel e missa-do-galo à meia-noite.

Não, definitivamente não se podia aceitar que faltasse um só desses itens, muito menos o peru e menos ainda o que só Conceição sabia preparar e fazia aqueles anos todos sem falhar nem um.

Pronto, estragada a noite de Natal! E não adiantaria tentarem consolar, dizendo que isso acontece, são coisas da vida, que a mesa estava linda, as coxinhas de aperitivo uma delícia, o ponche indefectível, o vinho branco de garrafa azul que ela tem paixão, não, nada salvaria a noite depois daquela falta imperdoável. Nem milagre aconteceria numa hora dessas...

Tocam a campainha. Sobressalto geral, porque não esperavam mais ninguém, a turma estava completa. Era o rapaz do súper que se identificava pelo interfone. Tinha encomenda pra dona Conceição. Subiu, entrou no apartamento, todo mundo curioso, o rapaz explicando que o seu Matias percebeu o peru que a Ceiça esqueceu, que também comentou que não dava mais tempo pra assar e que, em vez de levar dois para casa, levaria um – afinal era só ele que gostava mesmo – e que daria uma gorjeta pro rapaz entregar um à dona Conceição.

– Aí, Ceiça! Nem milagre, hem?

E a festa foi noite a dentro. Conceição entrando nas brincadeiras, com todo respeito que lhe deviam, lá no fundinho ainda um tanto de constrangimento pelo deslize, porque vez em quando alguém lhe sapecava um beijo, um abraço e a pergunta:

– Ceiça, vai ter peru ou não vai?

Dezembro, 2009

 


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