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Capa Memória Literário Falta de atenção
Falta de atenção Imprimir
Escrito por Tássia Jaeger   
Quinta, 04 de Março de 2010 - 11:41

desencontroCruzamos pela rua esses dias. Eu cantarolando com Marisa Monte, que tocava no meu mp3, e você com seus óculos de grau fora de moda, impassível. Estávamos em calçadas opostas e não nos vimos. Ao som de Ainda Lembro entrei no condomínio. Você pegou a linha de ônibus da qual há pouco eu havia descido.

À tardinha nos pechamos de novo. Eu passeava com meu cachorro. Você trazia o pão quentinho pro café. Eu conversava com a dona do cachorro que rosnava pro meu. Você só pensava na sua barriga vazia que logo seria saciada por bem mais que aquele cheiro de pão fresquinho.

Uma noite, na mesma festa estávamos. Você e seus amigos estranhos. Eu e minhas amigas normais. Eu olhava pra quase todos procurando alguém interessante. Você olhava tudo sem nada ver. Olhava pra dentro.

Fizemos vestibular na mesma sala. Eu não passei na faculdade pública e me perdi de você indo pra particular. Mas a profissão era a mesma e, por isso, estagiamos no mesmo lugar, só que em setores diferentes.

Cantamos a mesma canção naquela linda manhã de primavera, indo em direção ao parque. Dizia algo como "Me espera amor que eu tô chegando, depois do inverno a vida em cores, espera amor nossa temporada das flores." Você também gostava de Leoni.

Tropecei na entrada do teatro, mas você nem reparou, estava lendo o panfleto com informações sobre a peça. Se tivesse reparado, lembraria do meu rosto numa de nossas cruzadas.

Sorrimos e choramos em lados opostos do balcão de um mesmo bar. Estávamos bêbados, mesmo que você não parecesse alguém que bebe. Fumei três baseados. Um foi o suficiente pra você desistir. O fornecedor tinha sido o mesmo.

Tínhamos o mesmo ponto de vista sobre a pandemia que se alastrava no globo, assim como sobre a corrupção, o aquecimento global, a religião e a juventude contida. Você os falava. Eu só os pensava.

Uma vez nos pechamos na porta do cinema. Era um desenho animado. Você levava seu irmão. Eu, minha sobrinha. Só nós dois entendemos a metáfora usada em uma cena do filme e rimos. As crianças estavam em silêncio e seus pais provavelmente dormiam.

Vimos a mesma estrela cadente naquela noite de Natal. Você de Porto Alegre. Eu de Pelotas. No Ano Novo, vimos os fogos lado a lado na beira da mesma praia.

Tivemos amigos em comum, que nunca nos apresentaram. Fizemos o mesmo pedido. Ainda não o realizamos.

Nós, tão próximos um do outro e, ao mesmo tempo, tão distantes. Nós, tão sedentos da mesma bebida, tão maduros, tão tolos, tão parecidos... Nós que nos pertencíamos e que nunca nos conhecemos por pura falta de atenção.

 


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