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Capa Memória Literário Conto de Natal Urbano - II
Conto de Natal Urbano - II Imprimir
Escrito por Luís Bustamante   
Terça, 16 de Dezembro de 2008 - 17:11

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Sorte que o sofá de dois lugares ficava bem próximo à porta do apartamento - foi só o tempo de dar uma volta na chave e estatelou-se, exaurida. Sapatos para um lado, meias para o outro, os pés na mesinha de centro (que, estrategicamente, deixara ali, em vez de no meio da sala), ajeitou o corpo e tentou relaxar no macio do couro sintético. Mas as dores nos pés e nas pernas não davam trégua. Pior: parecia que aumentavam quanto mais tentava o tal relaxamento, coisa que tanto praticou nas aulas de canto e nas rápidas incursões pela ioga. Definitivamente, os quase sessenta anos começavam a pesar, mais ainda depois de um dia de trabalho cansativo e dos quatro lances de escadas.

Porque passar o dia todo de um lado pra outro naquele vasto supermercado, alcançando troco para as caixas, revisando notas, trocando mercadorias, era coisa que a idade não aceitava mais. Ainda por cima, véspera de Natal, parecendo mais o último dia antes de acabar o mundo.

Correria, empurra-empurra, caras amarradas, credo! Como as pessoas ficam desse jeito, quando deveriam só curtir o clima natalino ou, no mínimo, respeitar a comemoração do nascimento do menino Jesus? Queria ver se tivessem que ficar como ela, sozinha, sem parentes próximos, sem motivação para procurar os poucos amigos. Ter que trabalhar (porque precisa demais) até às onze da noite, num emprego temporário que nem sabe se depois efetiva... Tudo bem... ainda tinha uma garrafa de vinho. Servir uma taça. Escutar um disco (sim, ainda tinha vinil, e daí?). Aquele do John Lennon - Shaved Fish, lado B, faixa 11: Happy Xmas (War is over) - "Então é Natal. O que você tem feito?" Decidido: estirar-se num sofá, um copo de vinho, a música (o LP todo, tinha retorno automático da agulha) e ficar ali até morrer.

Isso se não fosse o toque da campainha e as batidas na porta. Levantou assustada, espiou pelo olho mágico. Era a síndica (que mania de tocar a campainha e bater na porta!). E queria o que, àquela hora? Ah, sim lembrando: a síndica é viúva há muito tempo, dos filhos não tem notícia, mas parece não estar nem aí. Costuma, nessas datas, bater (e tocar a campainha) nos apartamentos para compartilhar sua doida solidão. Bom, pelo menos teria companhia por alguns instantes. A síndica é engraçada, bem humorada. Distrai. Sempre faz gozação com alguma coisa: agora seria o vinil (como é que alguém ainda usa uma coisa como essa?). Riram as duas. Brindaram. Até ensaiaram uns passos de valsa. No toca-discos, John Lennon recomeça: "Então é Natal. E o que você tem feito?...".

 


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