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Capa Memória Literário Lugarnenhum e Trevaterra
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Escrito por Lugarnenhum e Trevaterra   
Terça, 09 de Setembro de 2008 - 12:15

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Era uma vez uma menina que era filha de um sapateiro que morava em uma aldeia muito distante, chamada Lugarnenhum. Sempre aprendendo coisas novas, um dia disse para sua mãe que seria princesa.

- Estás doida, menina? Não podes ser princesa! És filha de gente humilde e assim permanecerá. A mãe a lembrava todos os dias, pois diariamente a menina aparecia com um sonho diferente.

Um dia, sem entender muito o porquê, ela deixou de ver o pai, mas carregava com ela sempre a vontade de lutar por dias melhores, trabalhando sempre. A mãe a ensinou, embora muitas vezes provocando desilusão, que tudo o que quisesse só alcançaria com suor. Era a lição que as duas aprenderam com aquele homem que foi embora.

A menina cresceu. E reparou que havia pouco espaço para ela no mundo em que havia crescido. Deu adeus junto ao portão aos seus irmãozinhos que a mãe tivera com seu novo pai. E sabia que aquela imagem nunca se apagaria da sua mente.

A menina tinha um amigo. O melhor amigo de todos. Ele era um pouco diferente, mas ela não se importava. Seu melhor amigo era um dragão. Ele só tinha um defeito: um medo danado de sair da sua caverna. Com muita dificuldade a menina conseguia convencê-lo. Então o dragão deixava que ela montasse em suas costas e visse assim, do alto, o mundo que ela queria tanto ganhar. Só que ela cresceu, e ficou pesada, e embora ele não pudesse mais carregá-la nas costas, andavam lado a lado, sempre.

Um dia, em suas viagens pelo mundo, os dois encontraram uma bruxa. A bruxa, que ficou encantada pelos longos e lisos cabelos negros da menina, disse que o dragão queria na verdade cortá-los para fazer uma peruca. A menina chorou por dias. Para o dragão ela disse que a menina sentia um desconforto muito grande quando ele a abraçava, e que a incomodava o fato de suas escamas roçarem em seu rosto.

O dragão sentiu vontade de fugir, mas não o fez, apenas entrou em sua toca e de lá, prometeu que nunca mais sairia. A menina teve que viajar sozinha. Um dia, na estrada, ela conheceu um príncipe. De verdade, com grandes olhos azuis e cabelos da cor do ouro. E o príncipe a tratava como a uma princesa, exatamente do jeito que ela sempre sonhou. A festa de casamento dos dois foi a maior que Lugarnenhum já havia visto, e todos se admiravam com a felicidade do casal. Não demorou muito, a menina, agora rainha, deu dois herdeiros para o príncipe, agora rei. Um dia, o rei resolveu abandoná-la. Mas não assim como o leitor pensa, não... ele não saiu do castelo. Apenas dizia todos os dias que não a amava.

Às vezes a rainha lembrava de como o mundo era grande e de como seu amigo dragão fazia falta. Só que nada a encorajava, nada a animava. A rainha estava doente. Doente de solidão. Tentava ser mais doce, mas nada atravessava o coração implacável do rei. Ficou por três longos anos trancada em seu quarto. Não se embelezava, e doava todo e qualquer bem próprio aos pobres. Vestia-se apenas de preto. Como se negava a atender os súditos, logo, logo começaram a se recusar a pagar impostos. E o castelo foi desmoronando cada dia mais. Os cortesãos passavam fome, os pequenos principezinhos estavam cada vez mais magros. E a menina tornou-se uma rainha muito má. Se algum súdito dissesse algo que não agradasse, tinha a cabeça cortada na mesma hora. Seus cabelos não eram mais longos, lisos e negros. Tinham a cor da poeira da estrada que ela percorria todos os dias tentando ser feliz como outrora, ouvindo os conselhos furados da mãe.

O mensageiro real informou a rainha de que haveria um grande torneio. Só as melhores mulheres arqueiras poderiam participar, e o prêmio seria uma grande viagem ao redor do mundo.

- Quem sabe tu não consegues vencer? Perguntou o rei.
- Só assim poderás sair daqui de dentro deste castelo e deixar-me em paz.
A rainha treinou muito até o dia do grande duelo. Acertou todos os alvos. Ganhou a viagem. Negociou com quem promovia o evento, que todos os dias faria uma parte do caminho, mas que voltaria toda a noite para ver os príncipes que tanto amava.

O rei, na frente dos outros, dizia a todos que tinha orgulho da rainha, mas a noite quando esta voltava, falava que nunca deveria ter permitido que ela participasse do torneio, pois se sentia sozinho e abandonado.

Ela não se intimidou. Continuou sua viagem. Deu um tropeço um dia, numa calçada. Quando caiu ao chão, chorando, com dor nos pés, reparou que estava na frente da entrada da caverna do dragão.

- Quem é que está a chorar? Perguntou o dragão, colocando o focinho para fora.-Esta voz...

- Sou eu, dragão, a menina, sua amiga.

- Não, não és a menina. Tens pó compacto na cara e batom vermelho nos lábios! Usas sapatos de plataforma e trocaste os vestidos de chita pelos de seda! Usas uma peruca branca por cima dos cabelos! Diga: se és a menina, onde estão teus longos cabelos negros?

E a rainha tirou a peruca, limpou os lábios e o rosto; descalçou os pés e ficou só de "corpinho":

- Vai, dragão, sai daí, vamos conversar!

- Não saio! Se quiseres, entra tu aqui dentro.

E a rainha, que agora parecia mais com a menina, entrou. Embora conhecesse o dragão desde a infância nunca tinha entrado em sua caverna. As paredes eram de pedra cinza, mas cravejadas de pedras preciosas e coloridas, o que a faziam de uma beleza sem igual.

Um dia, conversando com o amigo, a rainha surpreendeu-se.

- Menininha...-o dragão tinha uma voz que entrava desde os ouvidos até as entranhas mais profundas dela.-Por que sofres? Quando estás aqui pareces que a qualquer momento vai começar a chorar.

- É que vontade não me falta. Minha vida não é como pintam os outros.

- Então por que não começa a lidar com a verdade que tens dentro de ti?

E o dragão a olhava com o mesmo olhar de outrora. Um olhar que a menina escondida na cara de rainha carregava consigo o tempo todo, mas que ainda não havia percebido. Um olhar doce, de alguém especial. Um olhar que seria vivo através dos tempos. E a rainha começou a chorar, dando lugar a menina. E ali mesmo, naquela caverna amou o dragão. Não só com o corpo. Mas por inteiro. Um amor que carregava desde o dia em que o conheceu, e não sabia identificar com certeza, pois amor é muito mais que podemos explicar ou sentir de uma vez só.

E todos os dias a rainha ia para a caverna, e a noite voltava para casa, dizendo palavras doces ao rei, para que ele não se sentisse sozinho. Ela sofria bem mais que ele, pois tinha um vírus que nem todos conheciam naquela época: se chamava consciência. Não achava justo que o rei ficasse olhando pelos príncipes sozinho enquanto ela ia tentar convencer o dragão a sair da caverna.

Não resistiu e contou a verdade. O rei chorou por quinze dias e quinze noites. E foi embora. Os principezinhos sofriam muito, e ela pediu que o rei voltasse ao castelo. Quando o rei voltou mandou construir uma torre. A torre mais alta que jamais alguém viu em Lugarnenhum.

- Para quê construíste esta torre, querido? - A rainha perguntava a cada dia que a torre ganhava mais um andar.

- Aguarde, minha beleza real, aguarde.

A verdade era que o rei não conseguia atender aos problemas do reino sem a rainha, pois os súditos ouviam apenas a voz dela, que agora se tornara uma pessoa boa e doce, com cabelos negros, longos, sedosos e brilhosos, com um sorriso áureo que teimava em escapar, de quando em vez.

E todos os dias ela visitava o dragão. Até o dia em que ele saiu da caverna. E os dois voaram o mais alto que puderam, a se amaram em uma nuvem que sobrevoava Lugarnenhum. Ela não sentia dor quando as escamas do dragão roçavam em sua pele lisa, nem muito menos sentia arder seus lábios quando ele a beijava. Parecia que agora a felicidade podia habitar novamente seu ser.

Foi aí que o dragão lhe deu um presente: um diamante, da parede da caverna. A rainha voltou para o castelo muito contente, com seu diamante escondido entre os dedos. Foi no portão que o rei a chamou e mostrou a porta da torre:

- Olha que linda a torre que fiz para ti! É aqui que vais morar daqui para frente. Dizes que me ama? Pois bem, agora só eu terei a chave do teu corpo e do teu coração.

No susto, a rainha deixou o diamante cair no chão.

- O que é isto?- O rei estava irado.

E ela contou toda a verdade. Baixou a cabeça e entrou na torre, em silêncio. Os principezinhos só podiam subir para ouvir as estórias das viagens da mãe, e dar um beijo de boa noite. Toda a noite o rei vinha acariciá-la. Ela não se entregava. Olhava para os lados, lembrava do dragão.
Uma pomba entrou na torre pelo forro mal construído, numa linda manhã de inverno. Trazia uma carta no bico. Entre outras palavras haviam estas: "Seu rei acha que sou uma ameaça para seu reino e pôs minhas asas a prêmio. Estou indo para Trevaterra, aquela cidade onde ensinam dragões arrependidos a reconstruírem as casas que destruiram. Vou construir muitas casinhas, que é o que realmente gosto. Avisa ele que a partir de hoje não mais me verás. Assinado: Dragão de Trevaterra."

A rainha pranteou por muitas horas seguidas. Gritou na janela, desesperadamente, mas ninguém ouvia, nem o dragão passava voando e muito menos os que lá embaixo habitavam. O rei subiu, e dando-se conta que havia acontecido algo, apenas pela cara de choro da esposa, perguntou:

- O que aconteceu?

- Nada.

Ele virou as costas, trancou a porta e tentou beijá-la. Ela deixou. O dragão não voltaria, mesmo. Só que a partir desta noite, o rei nunca mais a tocaria.

A noite acabou. O dia amanheceu. E outros muitos dias vieram. e ela jurou que mataria a rainha, e voltaria a ser a menina que sua mãe chamava toda a noite para jantar uma refeição pobre, mas feita com carinho. Guardava na mente a imagem do pai consertando sapatos velhos e sentia o cheiro da sua oficina. Lembrava também de quando seu padastro ensinava a ler clássicos, e o prazer que lhe proporcionava aquele carinho. Até da madastra que nunca foi má... lembrava do dia em que se conheceram, e ela cortou uma melancia em cubinhos para a menina. Todos os dias via a mãe passando pela estrada ao lado da torre, e ela tinha muita vontade de gritar, porém não adiantaria, ela não ouviria. Todos os dias deixava lágrimas escaparem por lembrar dos irmãozinhos no portão.

Descobriu que o rei havia mentido aos súditos que ela havia morrido, e em seu velório, por pena do monarca que enviuvara, todos os moradores da aldeia fizeram doações, e agora os principezinhos não tinham mais fome. Às vezes ela via o dragão passar voando, mas ele estava muito ocupado com seu capacete de construtor, para parar e ver que ela precisava de socorro.

Depois de muito tempo, a rainha ouviu uma voz que vinha muito baixinha, como se estivesse muito looooooonge. Lembrou então da janela que havia usado para gritar aos quatro ventos seu sofrimento pelo dragão. E olhou lá para baixo. Havia uma figura realmente estranha.

Era um bardo trovador. Vinha de muito, mas muito longe, cantando histórias que a rainha nunca havia ouvido. Enquanto ele cantava, ela escrevia. Ela o ouvia e jogava suas cartas com uma pedrinha para o chão. Um dia, na falta de mais pedrinhas, jogou a carta enrolada no diamante. Nela dizia que sentia uma vontade imensa de descer da torre, para ver o bardo de perto, muito perto.

Mas esta é outra história.

 


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