banner multi
Capa Memória Literário Conheci Janis há muito tempo
Conheci Janis há muito tempo Imprimir
Escrito por Thiago P. Oliveira   
Sexta, 29 de Agosto de 2008 - 16:16

20080829_janisO conheci nos tempos de escola. Naqueles tempos, como qualquer adolescente deslocado de hoje em dia, Janis odiava a tudo e a todos, inclusive a si mesmo. O próprio nome mais especificamente: Janisvaldo. Por isso, aqueles que queriam manter uma amizade permanente com ele, o chamavam de Janis (DIENIS). Isso mesmo, como a cantora.

Nesta época tempestuosa que é a adolescência, Janis era a pessoa mais desgraçada do mundo (ao menos era assim na cabeça dele) e a maior parte de seu sofrimento provinha de suas paixões inalcançáveis. Amores platônicos para ser mais exato. Em tais situações ele sofria, chorava, tinha vontade de morrer, e viver, para que em sua vã esperança, quem sabe, pudesse conquistar o tão cobiçado alvo de seu amor.

Este tipo de coisa não aconteceu apenas uma vez em sua conturbada passagem da infância para idade adulta. Apaixonara-se e desapaixonara-se inúmeras vezes. Algumas vezes até obteve êxito em suas empreitadas. Teve vezes que parecia ter encontrado o amor de sua vida e o que de melhor o mundo podia oferecer, mas no momento seguinte quebrava a cara e via o quão pouco conhecia do mundo.

Janis, ao ser jogado de um turbilhão amoroso ao outro, vivia constantes guerras pessoais entre ele e tudo a sua volta. Odiava o modo de falar, vestir e tudo mais que fosse característico de outro que fugisse aos seus requintados padrões. Enfim, Janis podia implicar com qualquer coisa que por algum mistério do universo não lhe agradasse, fosse uma música, programa de TV ou dia mais ensolarado que o normal. Tudo isso em virtude de suas vicissitudes amorosas e fracassos decorrentes.

No entanto, algo surgia de bom de todas essas crises. Não só influenciado pelo "roqueirístico" apelido que carregava, mas por toda uma geração de ídolos depressivos e desencontrados, Janis desenvolveu vocação para música. Arriscava-se também em algumas poesias e crônicas que chamava de "rabiscos". Seus cabelos compridos e roupas um tanto quanto fora do usual que a dos outros garotos da escola, davam a ele uma proteção, um diferencial daquilo que ele insistia em odiar. Suas poesias, músicas e tudo o mais que era capaz de escrever, continham toda a sua frustração e fúria pelo labor de seu coração ardente. A inspiração nestas horas era soberba. Palavras viscerais jorravam de sua mente. Sua guitarra para as músicas e o lápis para a poesia eram catalisadores de todo o seu sofrimento. Janis, na verdade, sentia quase um prazer ao ouvir uma canção mais triste no rádio que o remetesse à sua condição desgraçada. Beijos de novela o tocavam de uma maneira quase feminina ao imaginá-los recebidos pela amada em questão. E quantas foram elas! O suficiente para que seu mundo, aparentemente, fosse desabar. E tudo corria assim naquela época: Janis, apaixonado, isolado do mundo, desgostoso da vida não queria mais nada além de amar e ser amado e tudo isso o impulsionava para aquilo que queria para seu futuro. Janis queria ser escritor, nada mais.

Até então, Janis encontrara a inspiração necessária nos seus percalços. Como Nietzsche, um pessimista em relação a si mesmo, sua criatividade alcançara seu auge naqueles dias de drama sem fim. Até aquele momento.

Por uma virada do destino, Janis encontrou Magali, uma amiga de sua amiga. Desse dia em diante não houve mais Janis. Apenas Janis e Magali, o casal. Ele acabou mudando seus hábitos, seu modo de conviver com as pessoas, seu modo de ver a vida, seu corte de cabelo. Nada mais de madeixas revoltadas e sim, um cabelo curto e comportado. Janis estava feliz.

A felicidade do amor, objetivo que muitos almejam, acabou se tornando um empecilho na vida do escritor de amores itinerantes. Janis perdera sua inspiração. Para ele, escrever sobre coisas alegres era muito difícil e quando conseguia, não sentia o mesmo arrebatamento de um verso sofredor e aflito. Sem escrever com tanta freqüência, Janis, vira sua carreira começar a afundar. Começou a perder a mão para a escrita. As músicas que compunha já não eram tão tocantes. Não havia mais problemas para ele. Até na escola estava indo bem. Era um dos melhores alunos da classe (exceto Matemática, pois não tinha paciência para aquele bando de fórmulas que achava ser inútil). Iria se formar com apenas 17 anos. Enfim. Estava tudo bem. Tinha uma relação ótima com seus pais. Ambos davam apoio para seus sonhos e namoro. Nada que pudesse se queixar.

"E agora? Não posso desistir" pensava ele desanimado. Tentou alguns meios para que a tristeza inspiradora habitasse, ainda que provisoriamente, seu coração. Alugou Casablanca, E o Vento Levou, Bambi, ou qualquer filme melancólico que o trouxesse à velha forma, mas nem uma dorzinha sequer o acometeu. As músicas tristes que escutava nas madrugadas insones não mais o faziam lembrar do quão desgraçado tinha sido. Magali o fazia muito bem. "Vou terminar com ela" chegara a pensar uma vez, mas logo se censurou pela idiotice de sua idéia. Não valia a pena sacrificar um grande amor por uma carreira em que talvez não se saísse tão bem. "Mas ela é tão diferente de mim, nem temos os mesmos gostos" insistia desesperado para encontrar seu talento perdido. Claro que isso não passava de uma tolice, terminar com a namorada por causa de gostos diferentes. Não era por isso que estava com ela. Nem sabia por que estava com ela e não se importava com isso, afinal, o amor não pede explicações, não é? Magali, mais comedida e ponderada em seus atos, tinha, realmente, um temperamento oposto ao do meu complicado amigo. De índole cristã, tranqüila e descontraída ela era muito madura e decidida. Um lenitivo para o espírito inquieto do quieto Janis. E assim ele viu que o rompimento não era a saída mais acertada. Mas não iria desistir de ser um grande escritor, o maior que pudesse ser.

Depois dessa época, infelizmente, perdi contato com ele e Magali e só fui reencontrá-los há pouco tempo. De alguma forma, sempre soube que depois de tantos anos, eles ainda estariam juntos. Mais ainda, sempre soube que Janis iria se tornar um famoso escritor, de uma forma ou de outra. Encontrei-o numa sessão de autógrafos de seu mais recente livro, em uma grande livraria da cidade. Janis, com a calma que só o tempo pode dar, acabou mudando o tom de seus textos, já que sua tristeza o abandonara de vez. Janis se tornou um excelente autor de histórias infantis. Seu último livro "Dorminhoca, a minhoca preguiçosa" estava vendendo muito bem.
 


Notícias relacionadas


Expediente

Mapa do Site :: Portal Universo IPA - 1º lugar na Intercom Nacional de 2008 :: Expediente
Creative Commons © 2005-2013 :: AJor - Agência Experimental de Jornalismo IPA