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Capa Memória Literário Bendito é o fruto do teu ventre
Bendito é o fruto do teu ventre Imprimir
Escrito por Aline Torres   
Sexta, 18 de Julho de 2008 - 17:02

I

Rasgam a pele da grande cidade, os altos prédios. Traçam suas curvas, ruas de homens e motores. Percorre no seu corpo, a marcha, veloz e partida. Violam seus sentidos, as máquinas, e regem a vida que vaga distraída. Na pressa ninguém vê o feto, invisível, cuspido no seio do porto, alegre. A terra dos ninguém, das horas obedientes ao ronco da barriga. Do lixo como moeda de troca. Do irônico nome, Chocolatão, que salga em vez de adoçar, o leite, creme de barro, dos seus filhos.

II

Amanhece gelado, o sol. Hora de levantar. O dia se agita. O leite é pouco. A fome, banguela, arreganha-se à procura do pão, sonhado. O jeito é engolir o café e seguir a guerra feroz, de todo dia. Com corpo de formiga e força de cavalo, puxam o carrinho, de ferro chumbado, com 50 kg, ainda, vazio, pelas formas de concreto da cidade sonolenta. Úmida de orvalho, a Borges tem sua carne invadida na busca por alumínio. Penetram a Salgado, a cata de papéis, papelões. As mãos ligeiras despem lixeiras, nos volumes da Andradas, atrás de plástico. Descem pela Sete de Setembro e terminam, na Voluntários, a anatomia do corpo cansado e prostituído, da mulher petrificada.

III

Na volta, soterrados por lixo, os carrinhos pesam cerca de 400 kg. As pernas, cansadas, não desistem. Os pés, rudes, machucam o asfalto. Há sinais de tumulto. Vulgares, as buzinas exigem que se abram os caminhos: "Temos pressa, há sopa quente na panela! Sai da frente, há cama quente que me espera!" Pobres desgraçados, não sabem que também perderam o direito de andar...

IV

Atrás do prédio luxuoso da Administração Pública do Estado, escondem-se mais de 160 casebres, quase mil pessoas. Cachorros com pêlos de todas as cores correm pela imundice do pátio, junto com crianças, galos e galinhas. Os adultos começam a separar os materiais e, assim, reciclam 17% do lixo do bairro. À noite, as tábuas carcomidas das casas balançam como se mantivessem vida. O vento ri contente com a desordem. Palpita no ritmo cardíaco do medo, os corações. A chuva se aproxima. Talvez as casas não amanheçam em pé.


V - Seu Galeão e Dona Sandra

Seu Galeão tem cabelo de algodão e pele de lagarto, marcado com uma cicatriz do lado esquerdo do rosto, bronzeado pelo sol de Rivera, sua terra de nascença. Andou muito por essa vida. E nas andanças conheceu uma morena bonita de olhos lânguidos, sorriso largo e nome de cigana, Sandra Mara. Eles têm quatro filhos e mais os gêmeos que crescem na barriga que de tão redonda parece caber o mundo.

VI

Quando chegou, em 1984, só havia as árvores e os passarinhos. Montou a primeira casa do Chocolatão, com pedaços de madeira e lona, e não derrubou nenhuma árvore, que "não faz mardade pras planta". Logo o pessoal foi se fixando em volta. Não parou mais de surgir gente e barraco. A vida que continua igual, "aqui a gente trabalha de dia pra comer de noite. De manhã viaja pelo almoço e a tarde pela janta", conta e mostra seu carrinho, orgulhoso e grato.

VII - Seu Luis

Morador da comunidade, todos respeitam Seu Luis, que é homem estudado. Com as aulas de filosofia, na PUCRS, aprendeu a admirar as idéias de um alemão que falava em burguesia e proletariado. Hoje, se intitula marxista, e se mantém firme, mesmo quando o guri da vila debocha, por falta de saber ou por não acreditar. Resolveu cursar teologia, para calar a voz lá de dentro, do fundo, que perguntava se era cada um por si ou se tinha um Deus barbudo a rir ou chorar do caos aqui embaixo. Como a voz não calou, largou o curso, dois anos depois, pra lecionar inglês para crianças. No Chocolatão, carinhosamente o chamam, professor.

VIII

Ano passado, Seu Luís, foi nomeado secretário da Associação dos Moradores da Vila do Chocolatão. Quando fala sobre os projetos de geração de renda, o peito se enche. Os pés vão se afastando do chão e ele todo saltita feito pipoca. Os olhos flamejam brasas, incandescentes. E os dentes caídos da boca não tiraram por nenhum momento o intelecto ou juízo, das palavras. "Nossa idéia é gerar uma comunidade auto sustentável. Trabalhando com a reciclagem e o reuso dos materiais recolhidos."

IX

Para que o sonho, de Seu Luis, vire realidade é preciso que a comunidade tenha seu próprio galpão, que significa a liberdade de comércio e o fim da exploração dos atravessadores, amparados por poderosos proprietários, que descobriram no lixo, novo mercado. Mas nasce raquítica, a construção, que braço a braço, ergue sete metros de largura e 15 de comprimento, segurada com mais fé que certeza, de um galpão improvisado.

Com a entrada desse dinheiro será criado, conta o professor, a marcenaria, a padaria, o ateliê de costura e as casas inteligentes, feitas do material reciclável. Também a cozinha comunitária, que hoje é um fogão de duas bocas e a obra de conclusão dos banheiros, que o DMAE, em licitação vencida pela empresa Sulcava, há um ano, construiu. A equipe com certeza provida de grande espírito ecológico, ergueu seis peças, para a comunidade de mil pessoas, cada uma com um vaso, uma pia e um chuveiro. Não seriam suficientes, ora essa, nove minutos, por pessoa, para que se façam todas as necessidades? Inclusive tomar banho, se fosse possível, é claro, já que os chuveiros ainda não foram instalados, faltou verba. Enquanto isso banha-se em tinas e promessas, a esperança.

X - A prefeitura

A Prefeitura Municipal de Porto Alegre é composta por 21 secretarias, entre elas, a do Meio Ambiente, a SMAM, secretariada por Miguel Wedy. O secretário é assessorado por departamentos, como o Departamento Municipal de Limpeza Urbana, DMLU e o Departamento Municipal de Água e Esgoto, DMAE. Wedy orientou sua assessora de imprensa, Aline a passar a questão da reciclagem feita pelo Chocolatão a Mário Montes, diretor do DMLU, ou melhor, para sua assessora, Maria Inês. A resposta foi breve, "não iremos nos manifestar, eles trabalham de forma ilegal, não são conveniados com a Prefeitura, não vamos elogiar trabalhos assim". Já Angélica, secretária de Flávio Presser, diretor do DMAE, procura uma razão para obra inacabada, "ah, eles podem até ter comercializar os chuveiros, a prefeitura dá casas novinhas e eles vendem portas, janelas, vai saber né?". Presser, no seu gabinete, permanece calado.

XI - Seu Léo

Menino, pobre e sem estudo, catava alumínio para o antigo Cabeleira, dono do Galpão da Voluntários. Seu Léo é o presidente da Associação dos Moradores, sua luta é para que os meninos da favela consigam matrículas nas escolas. Também para que a Prefeitura entenda que construir casas bonitas, em ano eleitoral, sem garantir a fonte de subsistência aumenta a miséria. E para manter a integração da comunidade, "a gente ta mudando o sistema", crê. Trabalha como peregrino, bate de porta em porta, nas de madeira comida, nas de madeira nobre, e, até nas que nunca se abrirão.

XII

O pessoal anda pedindo um bailezinho no domingo, pra arrastar os pés, e aquietar a alma, mas, Seu Léo é sujeito sério. Avisa que só vai ter festa se a Prefeitura der jeito no esgoto, e que não quer nenhum "político-sacolinha" levando comida em troca de voto. Explica que não é por rabugice ou mal-humor que não festeja e por que antes tem coisas pra resolver. "Cada chuva que dá a água não baixa, não tem drenagem de esgoto, as casinhas ficam dentro d'água e as muié e criança encima da cama pra não dá pneumonia".

XIII - Seu Gilberto e Rafael

Seu Gilberto desceu de São Paulo, à procura de trabalho, procurou, mas não achou. Foi pra Vila do Cachorro Sentado e depois pro Chocolatão, onde mora há 10 anos. Velho e sem força, arrecadava por mês, cerca de 70 reais. Agora com seu filho Rafael, de 18 anos, morando junto, chega a 200 reais. Rafael é minguado, parece que cai com brisa, mas carrega sempre mais que os outros, e por mais que fale pouco, conhece todo mundo. "Sei o nome do primeiro de uma ponta ao último da outra". Agora está feliz, Seu Léo, conseguiu aprovar sua matrícula, é a primeira vez que entra em escola.

Bendito é o fruto do teu ventre

No casebre, duas peças, minúsculas, disputam o espaço, com alguns trapos, quinquilharias, roupas dependuradas, eletrodomésticos velhos, fotos de santos, o esposo, o irmão, a cunhada e os seus seis filhos, de Janaína. Católica. Ao lado, vivem Eliane, o marido, o irmão e cinco filhas mulheres, todas com a carne da pele, viva, sangrenta e rodeada de feridas cicatrizadas, causadas pelas micoses do lixo. É evangélica. Na ponta, Gabriela, morena vaidosa de expressão melancólica, divide o barraco com a mãe, dois irmãos e os quatro filhos. Não acredita em deus, nem no diabo. Só no trabalho, de mula, que mesmo quando dói o lombo, agüenta, cala e continua.

XV

Na fé ou na descrença, rompe dessas mulheres a nova vida, e quando a religião fala de livre arbítrio, esquece que nascem com destino traçado, as crias do desprezo, carregadoras da dor de viver às escondidas, pra que a vista humana, coberta por medos e mercadorias, não perceba a ousadia dos que vivem sem permissão. Do alto, à lua, que é mãe e mulher, assiste a tudo, envergonhada.
 


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