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Capa Memória Literário O espelho mágico
O espelho mágico Imprimir
Escrito por Oswaldo Faustino   
Quinta, 12 de Junho de 2008 - 14:29

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Caramba! Será que ele não existia? Existia, sim. Mas, pasme, aquele era um menino invisível. Você sabe o que é uma criança descobrir-se invisível? Não. A gente pode imaginar, pode ter uma vaga idéia. Mas saber, saber mesmo, só sabe quem é. A dor da invisibilidade só sente quem tem. E aquele menino era invisível.



Claro que ele não era invisível para todos. A mãe conseguia vê-lo, compreendê-lo, e era para ela que ele sempre corria. 'Mãe, eu me quero. Eu quero ser visto'. E ela, sempre generosa, dizia: 'Calma, meu filho! Talvez isso seja porque você ainda não é ninguém. Mas um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo'.

E o menino ficou matutando sobre aquelas palavras: 'Um dia você será alguém. Aí, o mundo inteiro vai poder vê-lo, reconhecê-lo'. E o que fazer para ser alguém? A própria mãe, que acreditava ter todas as respostas, disse-lhe o que ela imaginava ser a solução: 'Para ser alguém você precisa estudar'.

- 'Mãe, me põe na escola para eu ser alguém! Afinal, quem é ninguém jamais poderás se ver refletido no espelho'.

E lá foi o menino para o seu primeiro dia de aula e... Não. Ele não se via refletido no espelho escolar. Ele não estava lá também. Em nenhum espelho. Não estava no livro de matemática. O livro de História não contava a sua história. O de língua pátria não fala a sua língua.

Nem a professora o enxergava. Ela beijava algumas crianças, acariciava, dava atenção, aplaudia suas respostas, caprichava na nota. Mas ele, não. Não estava lá. O tempo passou. E, no mesmo dia em que se tornou adolescente, como num passe de mágica ele deixou de ser invisível e se tornou... suspeito. Suspeito crônico. Suspeito de todos os males que acometiam a comunidade em que vivia. De todos os males da sociedade.

E, no Brasil, se você é suspeito, já é culpado. Se não culpado do que suspeitam, culpado por terem suspeitado de você. E, finalmente, ele se tornou visível, na primeira página do noticiário policial. Mas essa história não termina aí. Seria triste demais. Aquele menino tinha uma irmãzinha caçula. Tão invisível quanto ele. E, como ainda era criança, ela acreditava na existência de um velhinho que trazia presentes no dia de Natal. As outras crianças o chamavam de Papai Noel. Ela, porém, o conhecia por Baba Noel. Como as demais, ela escreveu uma cartinha para o tal velhinho.

E Baba Noel começou a ler as cartas das crianças: uma pedia boneca, outra queria bola, outra bicicleta, aquela, computador, celular, vídeo game...E Baba Noel abriu aquela carta com pedido estranho: 'Para que eu possa me ver, me reconhecer, me identificar, eu quero uma jóia, uma jóia que me reflita: um espelho mágico'.

Só então Noel se deu conta de que não era a primeira carta que ele recebia com esse pedido. Havia outras, que ficaram esquecidas no fundo do baú de correspondências. Eram dezenas, centenas, milhares. Caramba! Talvez ele pudesse arranjar alguns espelhos mágicos, mas como arranjar espelhos para atender a tantos pedidos?

Teve, então, a idéia de fazer um único espelho. Um espelho gigantesco, em que todas as crianças invisíveis pudessem refletir-se. Baba Noel, então, procurou seu filho predileto, um artista sensível, culto, elegante, um escultor chamado M'Noel, e pediu-lhe que esculpisse, em ouro e no mais fino cristal, esse espelho mágico.

Foram anos de trabalho, muitos... Mas um dia o espelho mágico ficou pronto e todas as crianças, antes invisíveis, puderam ver seu reflexo e refletir sobre elas próprias...Aí, descobriram que são belas, belíssimas, ricas, poderosas e não ficam a dever nada a todas as demais crianças.

 


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