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Capa Memória Opinião Millôr Fernandes: quando gestos valem mais que palavras
Millôr Fernandes: quando gestos valem mais que palavras Imprimir
Escrito por Jorge Sant'Ana   
Quarta, 18 de Abril de 2012 - 14:33

millorAs pessoas lembram muito das palavras de Millôr, e com razão. Mas este texto é para lembrar dos seus gestos, tão grandes quanto seus pensamentos. 

O ano é 1982. O cenário são as primeiras eleições diretas para governador, depois de um longo período de Ditadura Militar. Millôr Fernandes, que desfrutava de um dos espaços mais prestigiados da mídia nacional: duas páginas da revista Veja, nas quais escrevia e desenhava o que bem entendia (ou quase, como se verá), não titubeou ao apoiar de forma explícita, o candidato da esquerda ao governo do Rio de Janeiro, Leonel Brizola.

Victor Civita, fundador da Editora Abril e dono da Veja, chamou Millôr para uma conversa. Depois de fazer elogios e o definir como o maior jornalista brasileiro, pediu (sem ordenar), que cessasse o apoio a Brizola, até as eleições, alegando que a revista pretendia ser isenta. Mesmo que, anos mais tarde, ao comentar o episódio, Millôr diria que na época, a Veja fizera matérias de apoio a Antônio Carlos Magalhães. O empresário insistiu, então, que Millôr mantivesse silêncio em troca de sua permanência na revista. Porém, o cartunista não cedeu, e abriu mão de um dos maiores salários da imprensa nacional, em nome de sua independência editorial. Para ele,"Jornalismo é oposição, o resto é armazém de secos e molhados".

Em 1964, com a Ditadura recém instaurada, Millôr, proprietário da revista quinzenal Pif-Paf, considerada, anos mais tarde, pelo Serviço de Informações do Exército como o marco inicial da imprensa alternativa no Brasil, escreveu no oitavo número, na última página a frase: "Advertência: se o governo continuar deixando que circule esta revista, com toda sua irreverência e crítica, dentro em breve estaremos caindo numa democracia". Por ordem do governo ou do regime militar, o número seguinte não foi às bancas, e a revista encerrou sua trajetória.

No ano de 1975, em tempos do AI-5, no auge da repressão política, o jornal O Pasquim, publicação que revolucionou a linguagem jornalística, fez críticas aos costumes e ao governo da época, considerado de maior censura e arbítrio dos "anos de chumbo", anunciou o fim da censura prévia. No editorial, Millôr afirmou: "Agora O Pasquim passa a circular sem censura. Mas sem censura não quer dizer com liberdade... num país em que o judiciário brinca de justiça sem o mínimo dos direitos que é o habeas corpus, este jornal, só, pobre, sem qualquer cobertura – política, militar ou econômica – e que tem como único objetivo a crítica aos poderosos, não pode se considerar livre. Mas continuaremos a trabalhar, com a liberdade interior, que é nossa e nunca nos tiraram, e com o medo, que é humano". A publicação foi apreendida, mas Millôr se mostrou ainda mais radical na edição seguinte. Porém dissuadido por seus colegas, abandonou o jornal.

Antes disso, também no Pasquim, o regime Militar já havia censurado a sua crônica "Legalizemos a Banana". Nas últimas linhas, Millôr declarou: "Em Jacarepaguá, existe um cemitério só de bananas. Foi fundado, em 1833, pelo padre negro, do Zaire, Regias Aminta, que trouxe para o Brasil a manga-espada, a fruta-de-conde e o aipim-manteiga. A banana não foi ele quem trouxe. Aliás, a banana só foi introduzida no país inteiro há muito pouco tempo".

Com tantos exemplos de bravura, em tempos difíceis e prejuízos profissionais decorrentes dessa sua postura contestadora, Millôr poderia ter exigido do governo uma indenização financeira, como fizeram alguns de seus colegas e muitos ex-guerrilheiros. Porém, sobre isso, Millôr declarou: "A luta armada não deu certo e eles agora pedem indenização? Então eles não estavam fazendo uma rebelião, estavam fazendo um investimento".

O escritor Luis Fernando Veríssimo o definiu como "um gênio com princípios". E, assim como eu, o proclamou "meu ídolo".

Millôr morreu no último dia 27 de março, aos 88 anos, e deixou parte de sua sabedoria em frases que se consagram e se perpetuam no seu currículo ímpar e genial.

Millôr & suas frases

"Viver é desenhar sem borracha".

"Como são admiráveis as pessoas que não conhecemos tão bem".

"Ontem,ontem tinha agá, hoje não tem. Hoje ontem tinha agá e hoje, como ontem, também tem".

"Em qualquer roda, é fácil reconhecer um jornalista: é o que está falando mal do jornalismo".

"Não sou livre, mas poucos chegaram tão perto".

 


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