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Quem tem medo da política? Imprimir
Escrito por Pedro Henrique Gomes   
Terça, 04 de Setembro de 2012 - 18:03

dinheiraoVários mal-entendidos permeiam o debate político no Brasil. A ideia de que o envolvimento com a política não é coisa digna de perder tempo não é nova. Não é nova também a concepção vigente de que não existe mais tal coisa como uma dialética direita versus esquerda, além de ser uma ideia singular de representatividade, não compreende a pluralidade tanto das direitas quanto das esquerdas, pois, se não existem oposições, não haverão mudanças – daí a afirmação ser alienadora e totalitária.

É constante a reclamação do povo: "Políticos são todos corruptos", "o fulano rouba, mas faz", "pior do que está não vai ficar", "nessas eleições não vou votar em ninguém". Embora esteja bastante evidente que o cenário político porto-alegrense esteja carente de candidatos, tratam-se, evidentemente, de reducionismos. A desvalorização da política como ação concreta, possibilidade de mudanças e estratégias sociais é a síntese do século, pois resvala na composição de uma classe de eleitores engajada em negar a existência possível de uma utopia. A utopia, retirando-a da acepção bastante vaga e vulgar que a outorga uma condição de impossibilidade, é justamente a potência da criação política que concorre nas eleições. A utopia é necessária.

Mas não podemos romantizar em demasia. Não dá pra pensar politicamente apenas em época de eleições. Exercer direitos não é apenas ir às urnas a cada dois anos achando que mudaremos o país. Mas não estou fazendo apologia à filiação partidária. A mistificação da política é fruto da própria despolitização da sociedade, que não quer aceitar que o governo (ou o Estado) fique nas mãos de um bando de ladrões. E a mistificação da política é também autoritária, pois é engendrada inclusive pela mídia que, por sua vez, se alimenta dos conglomerados privados. Nada mais inocente do que pensar que fazer política é coisa apenas de gente desonesta, e que a melhor forma de lidar com isso é correr para longe das trincheiras. Só a política pode nos salvar dos maus políticos. Para além do sentido estrito do termo, entenda o que quero dizer com política: a construção de uma sociedade plural, com vozes, cores, discursos e ritmos articulados e germinantes; a política da práxis social, da coletividade, da potência. Fazer-se político enquanto constituímos os sujeitos.

Aí, claro, entramos na questão das eleições e do voto. Ora, votar deveria ser uma atitude meticulosamente ponderada, não simplesmente medida a revelia de qualquer análise, a observação precisa perceber as conjunturas necessárias para que se estabeleça uma unidade política que corresponda às demandas sociais. Ninguém tem a exclusividade do poder. Daí que quase sempre as críticas às alianças políticas afundam no mesmo sectarismo e nas críticas vazias de quem se pretende "independente politicamente". Muitas alianças são indesejáveis e representam interesses escusos em época de eleição, mas se for o caso de buscar uma conjuntura precisa, com pontos de toque, com convergência, não vejo porque alimentar esse discurso apolítico que se pretende dono de uma autonomia de aparências.

Desiludir-se politicamente é algo como abandonar a política partidária, mas nem por isso significa desistir da política. Política é convencimento. Fugir do debate é aceitar a mistificação das massas (nas palavras de Adorno/Horkheimer) e negar aquilo que apenas aparenta ser uma posição de revolta. Sabemos que não é possível resolver problemas apenas com argumentos negativos (contra uma dada proposição), precisamos de ideias positivas (a favor delas) que contribuam para o fortalecimento de ações práticas reais. Não há mundo possível sem a conscientização política. Uma cidade democrática vai naturalmente deixar de ser heteronômica para ser mais autônoma somente quando, na medida em que reconhecer seus desníveis, enfrentá-los criticamente. Várias coisas contribuem para o engessamento da própria política, entre elas a privatização do financiamento de campanha, que mercantiliza os programas de governo e despolitiza o eleitor (que paga a conta de qualquer maneira), mas isso já tema para outro texto.

A juventude elitizada, informatizada, graduanda, cheeseburguer, ainda não aprendeu a defender direitos simplesmente porque não sabe o que eles são e quais são. Direito de existência. É por isso que nesse semestre de eleições municipais sobram discursos totalitários que relegam a política a categoria social mais monstruosa possível. Mas não adianta negar a existência da barbárie e não enfrentar os mecanismos pelos quais ela se constitui, se alimenta e se fortalece. Que enfrentemos os monstros. Não há como derrotar o apodrecimento dos aparelhos público e privado virando as costas para os problemas que constituem as raízes primeiras das mazelas sociais. Mas a discussão aqui não é moral – reduzir a política à moral é leviano. O tecido social deve ser horizontal, atravessado pelas forças conjuntas que se organizam em defesa de ideias reais.

O maior símbolo da banalização da política é o grito, um tanto desesperador, das pessoas. Quando alguém diz "eu não gosto de política" está provando a existência e a força da política mesma e de suas implicações ideológicas. Como se a política fosse algo a se manter afastado para conseguir manter a independência e a originalidade de pensamento, sendo que é justamente a banalização da política o próprio clichê travestido de protesto. Se disseram que devemos enxugar o número de políticos, não necessariamente precisamos de menos política.

 


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