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Democracia do Islã Imprimir
Escrito por Asaph Borba   
Terça, 12 de Abril de 2011 - 16:58

meca-islaEnquanto o mundo aplaude os levantes anti-ditadura nos países do norte da África e Oriente Médio, alguns poucos analistas internacionais olham com cautela para estes orquestrados movimentos "democráticos" nas nações pertencentes à Liga Árabe, onde, ao que tudo indica, quem dita as regras é a lei Islâmica.

Para o escritor e analista político americano, George Friedman, em seu livro, A Próxima Década, os levantes fazem parte de uma estratégia apoiada pelas mesquitas e líderes radicais árabes, incluindo a rede Al Qaida. Para o autor os movimentos visam manter e quando necessário, reimplantar, as regras de conduta e fé islâmica. O objetivo é mudar as estruturas de governo vigentes, que na atualidade, expressam demasiada abertura com o ocidente - diga-se, Estados Unidos e Europa – que estão exercendo demasiada influência sobre a milenar cultura local.

Tomando-se como exemplo o Egito. Além de ser o país mais populoso da região, é também o que exerce a maior influência cultural principalmente no que diz respeito à televisão, cinema, novelas, produção literária e musical. O que é produzido no Cairo é certamente transmitido para todo o Oriente Médio, onde há uma extrema carência de produção cultural e de conteúdo como um todo, fazendo com que o sotaque egípcio seja sinônimo da linguagem televisiva Árabe. Para os padrões da região, o Egito é um país de ponta também na área da educação, onde salienta-se na medicina e na indústria química em geral assim como também na pesquisa. Engenheiros e médicos egípcios são encontrados em todos os cantos do Golfo Pérsico, sendo também o país árabe com maior número de patentes registradas. É ainda na terra dos Faraós que se concentra a maior população cristã da região, com quase 10 milhões de fiéis. Ali estão as sedes das maiores redes de transmissão de programas evangélicos, assim como as maiores Igrejas, que já começam sentir a pressão das novas mudanças.

Mas se engana quem pensa que as atuais mudanças têm muito a ver com a democracia que conhecemos. A democracia que estamos assistindo ainda é um movimento prioritariamente teocrático. Pois está totalmente alinhado com as tendências totalitárias do Islã que já são instituídas na região. Nos dias seguintes à renúncia de Mubarak, uma das primeiras atitudes da nova junta militar, "pró democracia" foi abrir o canal de Suez, hoje controlado pelo Egito, aos navios de guerra Iranianos, declarados desafetos do regime de Mubarak e dos Estados Unidos. O fato mostra uma oposição visível às posições ocidentais com respeito ao país dos Aiatolás. Da mesma forma, esta mesma junta, colocou imediatamente, limites à imprensa internacional, a qual foi usada anteriormente para divulgar o levante popular, agora não é mais tão bem vinda para acompanhar a transição. É fácil ver que qualquer mudança política no Egito trará uma releitura do tratado de paz com Israel, o qual poderá mexer com o balanço de poder na região.

Outro foco de "apelo popular democrático" contra ditaduras é o Qatar. Para quem não sabe, neste pequeno país do Golfo Pérsico, está localizada a emissora de notícias e programação jornalística de maior credibilidade da região, a Al Jazira, que ganhou notoriedade por transmitir de maneira imparcial, os recados oficiais de Bin Laden e sua Al Qaida. Porém recentemente a emissora e o governo do Qatar tem sofrido pressões e atentados por ser a emissora considerada demasiadamente pró-ocidente, e não ceder às imposições midiáticas dos radicais. O Qatar é também um lugar onde o cristianismo tem relativa liberdade, assim como no Egito.

Já na Líbia, o caso é diferente. Por muitos anos o ditador Muamar Kadafi foi tido como um inimigo do ocidente, que acolheu em seu país todo tipo de mercenário antiamericano ou terroristas conhecidos, como os que explodiram o avião da Pan American sobre a Escócia na década de 80. Porém, nos últimos anos, o ditador amenizou o seu discurso e voltou-se para a Europa e EUA, chamando a atenção até mesmo do Brasil, onde o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em visita, promovendo acordos políticos e comerciais, que geraram investimentos. Graças à sua reaproximacão com a Europa e América Latina, Kadafi, obteve um maciço aporte econômico internacional, sem precedentes na história de um país norte africano, que trouxe para a Líbia, modernidade e uma certa prosperidade. Kadafi também abriu seu país à cultura internacional, ao permitir o ingresso da Internet, da TV a cabo e outras modernidades na área da comunicação, atípicas nos países árabes. O ditador passou a frequentar a cena política internacional, e gradativamente a Líbia tornou-se um crescente mercado de produtos, serviços e turismo, o que desagradou os setores radicais, que pediram sua retirada. Au não aceitar como fez Mubarak no Egito, o país mergulhou na atual crise que envolve as forças da OTAN.

Estes são apenas alguns dos exemplos que podem ser citados para ilustrar o quanto estes movimentos são factóides e pouco genuínos no que se refere à autenticidade democrática.Procuram usar a mídia internacional para obtenção de apoio, mas ao final nada tem a ver com o que conclamam, mas com uma agenda pré- determinada para minimizar a influência internacional no mundo árabe. É uma busca por proteção e continuidade do poderio islâmico, e os líderes mais radicais falam abertamente em buscar um califato central e à Jihad, que é a guerra santa.

No caso do Egito foi clara a influência direta de uma conhecida entidade política radical chamada Irmandade Muçulmana, que logo preferiu tirar seu nome de cena, pois seus desígnios poderiam ser facilmente descobertos.

A Irmandade Muçulmana é uma entidade que pode ser considerada quase um um baluarte do pensamento tradicional islâmico, que tem ajudado a ditar as regras dos direcionamentos espirituais da Comunidade das Nações Árabes, e sempre mantem-se próxima ao poder. Através de legisladores radicais a Irmandade foi galgando postos nos governos, para então impor as mesmas regras em todos os países árabes. Tais regras visam limitar os poderes e influências das minorias, principalmente cristãs.

Durante o Império Otomano, centralizado em Istambul, na Turquia, a Irmandade teve seus poderes limitados. Porém, durante a vigência do Império Britânico na região, já no século 20, a facção fortaleceu-se como partido e esteve por trás de muitas negociações que dividiram o gigantesco Império Turco em pequenas nações e principados, aumentando a sua influência nos governos. Seu objetivo não é tomar o poder, como falou um de seus porta vozes recentemente, mas é alcançar pelo pelo 30 por cento das cadeiras legislativas, podendo assim ditar uma agenda progressiva, incluindo a exportação das idéias ideológicas do Islã para todo o mundo, até mesmo ao Brasil.

No site internacional da Irmandade, pode-se ver com clareza o quanto a entidade procura mostrar sua influência na região, e chama para si o atual movimento pró-democracia. Um de seus principais líderes, o xeique egípcio Yusuf Al Karadawi, faz afirmações polêmicas sobre vários aspectos políticos e sociais, publicados em várias revistas pelo mundo a fora, inclusive na brasileira, Veja. O líder faz declarações, que fariam os democratas mais liberais tremerem só ao ler, pois versa sobre a continuidade dos costumes islâmicos como prioridade de sua facção, mostrando dessa forma que a democracia proposta pretende mudar apenas o mandatário, mas jamais o regime.

Todo o processo atual, cujo agendamento da mídia internacional hoje se concentra apenas na Líbia, aonde a guerra já foi deflagrada, e aonde o mandatário insiste em manter-se no poder. O grande questionamento que poucos fazem é: Quem vai governar?

A mídia fala de um processo que não a não ser que haja uma forte sustentação internacional não tem como subsistir pela total ausência de liderança. O Egito com um pouco mais de organização ainda tem uma junta militar que pode dar algum norte, mas em países como Líbia e mais recentemente a Síria os governos se reelegiam com mais de 90 por cento de intenção de votos. Não existe quem tenha sequer votado alguma vez para eleger um mandatário. Infelizmente, para quem almeja mudanças, o processo de transição já está nas mãos dos radicais. Nem ao menos se esboça que um Partido Democrático esteja se mobilizando juntamente com algum Partido Social Democrata ou coisa assim, em prol de um processo de eleição da maneira que conhecemos. A junta militar que assumiu no Egito, por exemplo apenas mantém as instituições e segue a agenda islâmica até que um novo mandatário seja estabelecido para ficar por mais 30 anos, ou o quanto for conveniente.

Ao ver-se o exemplo da mais nova nação "democrática" do Oriente Médio, o Iraque, o caos é crescente. O governo é fictício e está à beira de um colapso total, o que por certo acontecerá com a retirada das forças aliadas, para não falar em uma guerra civil.As alardeadas eleições iraquianas são totalmente manipuladas pelos radicais xiítas, maioria absoluta no país, que impõe sua lei aos olhos inertes dos aliados. As vozes das mesquitas ditam as regras do terror naquele país, que já ceifou quase cinco mil vidas dos aliados e mais de 100 mil iraquianos. As facções insufladas pelo Iran e por outros grupos radicais, como o libanês Hesbolah, conclamam um Oriente Médio sem americanos, sem cristãos e também sem Israel.

Para as minorias que habitam a região, principalmente os cristãos, para não falar de curdos, assírios, e até mesmo sunitas, o tempo é de incerteza. Muito do que lhes dava segurança, pelos governos anteriores foi ruindo. Aonde havia relativa estabilidade, como nos países já citados, a incerteza tomou conta.

O que se espera é que a mídia internacional possa pressionar os governos ocidentais para que estes continuem dando a devida atenção ao desrespeito aos direitos humanos, principalmente os decorrentes em função da fé religiosa que, além de estarem promovendo êxodos populacionais, entregam a região ao radicalismo, esquecendo, assim, a tão sonhada democracia, que com raras exceções ainda será por muito tempo uma utopia no Oriente Médio.

 


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